Neste post conto como criei a escultura Dama de Avalon com Véu, em cerâmica com pátina manual. Falo sobre a inspiração para a peça, por que escolhi esse nome e como foi o processo criativo: definindo a expressão do rosto e o véu durante a modelagem no ateliê.

Por que escolhi o nome Dama de Avalon com Véu
“Avalon” é a ilha sagrada dos mitos do Rei Arthur. Governado pela Fada Morgana e protegido pelas neblinas, é um reino acolhedor de cura.
As Brumas de Avalon e a inspiração para a escultura

Quando comecei a criar esta peça, já tinha lido o romance As Brumas de Avalon. A atmosfera medieval criada pela autora me fez recordar as ilustrações de damas e rainhas de que sempre gostei, desde criança.
Uma prática frequente durante meu trabalho no ateliê é ouvir audiolivros. Assim, aproveito o tempo que não dedico à leitura tradicional, e a experiência também é ótima para estimular a imaginação.
Decidi, então, colocar o audiolivro de As Brumas de Avalon enquanto criava e modelava esta peça, para mergulhar novamente naquele mundo.
Escrito por Marion Zimmer Bradley e publicado em 1979, As Brumas de Avalon reconta a lenda do Rei Arthur pela perspectiva das mulheres, em vez de se concentrar nos cavaleiros e nos campos de batalha.
Adereços na cabeça: uma característica do meu trabalho
A intenção ao começar uma obra nem sempre está clara na mente do artista. Nesta peça comecei fazendo algo que adoro: modelar na argila uma cabeça com a intenção de criar um adereço ou detalhe específico para ela.
À medida que definia seu rosto, ela “pediu” uma extensão do penteado, surgindo então o chapéu medieval sustentado por um véu. No fim, este adereço da cabeça só se revelava por inteiro sob determinado ângulo.
É isto que passou a diferenciá-la: a inclinação da cabeça foge do formato convencional ereto de um retrato. A Dama de Avalon pode ser apreciada de diferentes ângulos: é bem vista de cima, de perfil, ou mesmo de frente. Acho que é justamente esta particularidade que torna tão interessante.
Como encontrei a forma do chapéu da Dama de Avalon

Eu queria transmitir que ela está usando um hennin, o chapéu em forma de cone que todas nós associamos às damas medievais. Sempre me pergunto como seria usar um, seria confortável, pesado?
Por isso queria representar algo discreto, que fosse parte da vestimenta mas que não ficasse na vertical chamando a atenção.
Decidi dar esse formato curvo, quase como extensão da cabeça da Dama. Quando modelei essa parte senti: “Agora sim encontrei o tom de minha dama.”
Os véus e chapéus das mulheres medievais

Não sei porque me atrai essa espécie de faixa que as mulheres da elite da Idade Média usavam no rosto e o chapéu em forma de cone, tão característico.
O véu que representei chama-se wimple ou barbette, dependendo de como é colocado: Para cobrir o cabelo, o pescoço e o queixo com sinal de recato e status das mulheres casadas, ou para servir de suporte para prender o véu com alfinetes.
A expressão do rosto durante a modelagem em argila

A mistura de memórias foi influenciando minhas mãos na hora de modelar a argila. À medida que o rosto ia surgindo e parecia tomar vida própria, quis dar uma expressão introspectiva e, ao mesmo tempo, intensa.
Acho que a boca acabou ficando um pouco sexy, não era minha intenção – em minhas peças nunca uso essa estratégia – mas achei bonito, principalmente de perfil e decidi deixar assim.
A escultura Dama de Avalon finalizada

Sempre que finalizo uma peça, ela fica visível em uma estante no ateliê para que eu observe, veja de vários ângulos, observe os efeitos de luz sobre a superfície.
Dessa maneira consigo perceber e transmitir como ela vai ficar na casa das pessoas. Gosto de sentir essa segurança antes de oferecer a peça como arte decorativa para venda.
Ao contrário de um retrato tradicional, com o rosto ereto e voltado para a frente, esta dama de Avalon tem uma sutil inclinação da cabeça, que lhe confere uma presença mais suave, elegante e enigmática em um espaço da casa.