Vento de Afrodite é uma escultura autoral de parede, feita em cerâmica com um rosto feminino em relevo. Neste texto, conto como criei a peça em meu ateliê, qual foi a inspiração e as decisões que tomei para personalizar a moldura onde fixei a peça.
A ideia que gerou o Vento de Afrodite

A ideia para criar este relevo veio do quadro O Nascimento de Vênus. A intenção foi criar o rosto de uma mulher imaginária com o pescoço alongado e os cabelos movimentados pelo vento.
Apesar da delicadeza do tema, a expressão que eu queria transmitir era a de uma mulher com atitude decidida, por isso ela está olhando para a frente.
A primeira inspiração para o Vento de Afrodite foi um evento de arte em que participei para celebrar a primavera. Gostei tanto dos relevos que criei, que decidi retomar esse tema anos mais tarde.
Adoro modelar em argila terracota

Para modelar o original usei meu material preferido: argila terracota. É um material gostoso para as mãos, flui facilmente, obedece a cada toque dos dedos e permite mudar de ideia enquanto desenvolvemos a peça.
As mulheres de Botticelli que me inspiraram
O estilo de todo artista é alimentado por obras de outros artistas. Não são apenas referências; na realidade, são pequenas homenagens aos autores de obras tão lindas, que vivem em nosso imaginário criativo.
Para mim, o pintor do Renascimento Sandro Botticelli ocupa um lugar especial. O tom decorativo de suas telas, a elegância dos corpos, os pescoços alongados e os cabelos esvoaçantes de suas deusas sempre me fascinaram. Os pescoços curvos de algumas de minhas mulheres podem ter um pouco dessa influência.
O desafio de modelar um rosto em relevo

Tecnicamente, esta obra foi um exercício de busca por delicadeza. Modelar um rosto em relevo exige precisão nos volumes para que a luz e a sombra revelem a expressão com suavidade, sem perder a personalidade da figura.
Para mim, o relevo é uma das soluções mais expressivas e menos exploradas na escultura para ambientes atuais: ele ocupa o espaço da parede como um quadro, mas traz a presença tátil e tridimensional que só a terracota possui.
A moldura como parte da escultura

A moldura nos relevos não serve apenas de acabamento decorativo, na realidade serve para proteger a obra tanto em seu transporte quanto em sua fixação no espaço do comprador.
Como escultora, entendo a moldura também como parte integrante de um relevo. Ela pode servir como uma extensão do universo que a peça sugere.
No caso de Vento de Afrodite, lembrei as pequenas ondas que estão aos pés da Vênus na tela original, além das flores que caem delicadamente ao seu redor. Decidi então pintar na parte inferior da moldura esse detalhes de maneira discreta, e amei o resultado.
Na parte superior, coloquei pequenas pérolas para completar o conjunto.
As coincidências que fazem parte do processo criativo

Escolhi as pequenas pérolas simplesmente porque adoro esse elemento, são como um toque de luz na composição. E foi aqui que aconteceu uma daquelas coincidências próprias do processo criativo: observando outros quadros de Botticelli me dei conta de como as pérolas estão profundamente ligadas a seu universo!
Elas faziam parte de muitas damas retratadas por ele, com pérolas delicadamente trançadas em seus penteados, faixas de cabelo e roupas.
Embora a sua famosa Afrodite surja natural e sem adornos no “Nascimento de Vênus”, esse detalhe acabou criando uma ponte poética e involuntária entre o repertório do pintor e a minha própria intuição no atelier.
Assim, a moldura em madeira com detalhes em pérolas e pintura floral fechou a história que começou na minha imaginação.