Neste post, conto como criei minha versão em escultura cerâmica de uma estrige, ou strix, criatura sombria do folclore europeu. Compartilho algumas das minhas escolhas na criação da personagem, parte do processo artístico e um momento tenso do trabalho com a argila: cortar a peça para a queima no forno.

Como imaginei a ferocidade da estrige

Gosto de criaturas femininas que trazem algum mistério oculto. Fiz esboços para pesquisar os elementos que costumam caracterizar uma estrige na ilustração e nos filmes.
Como artista, não me identifico com as representações da ferocidade feminina que se tornaram tão comuns. Acho que essa maneira de representar as mulheres deveria ficar no passado.
Mesmo assim, a ira é um sentimento de todos os humanos, por isso queria representar uma estrige, mas suavizando – ou controlando – seu aspecto feroz tradicional.
Como representei os traços animais na estrige

Nesta peça, decidi criar uma confusão poética entre o que é parte do corpo da criatura e o que é parte do figurino.
Assim, na minha mente ela se revelou como uma manequim que desfila nas passarelas tentando esconder sua natureza feroz.
A cauda do vestido se confunde com asas e, ao subir um degrau, ela não consegue esconder suas garras por baixo da roupa.
Não sabemos se o bico é um adereço ou se faz parte de sua natureza. Da mesma forma, o elemento nos ombros pode ser um tipo de ombreira ou, quem sabe, suas asas devidamente cortadas.
Um aspecto que costuma estar em várias de minhas esculturas é o cabelo recolhido ou trança única nas costas, amarrado por um laço. Acho que tem origem nos penteados das mulheres da América Latina, um detalhe que adoro.
Por que decidi criar uma estrige?

Os artistas quando falam de sua inspiração, muitas vezes, não tem ideia dos motivos de suas obras. Para ser sincera, não me lembro exatamente porque decidi modelar uma estrige.
Parte da motivação pode ser que eu treinei bastante a modelagem de garras e unhas de criaturas fantásticas em outras peças, o que me levou a pensar como ficariam essas garras em uma de minhas mulheres elegantes e estilizadas da série “Altivas”.
O momento mais tenso: cortar a escultura para deixá-la oca

Para transformar uma escultura de argila em uma peça resistente e durável, existem algumas possibilidades. Uma delas é fazer um molde para reproduzi-la em resina; outra é queimá-la em um forno de cerâmica.
Minha escolha, na maioria das vezes, é a queima cerâmica.
Imagino que muitas pessoas que gostam de arte, como você, pensem que nossa vida no ateliê é tranquila e cheia de paz.
Em parte, é mesmo. Mas existem momentos tensos, como quando terminamos de modelar uma escultura em argila e precisamos prepará-la para a próxima etapa.
Para que uma escultura de argila possa ser queimada no forno, ela deve ser oca. Aí começa a tensão: cortar a peça em alguns pontos, retirar a argila de dentro e depois remontá-la sem deixar rastros!
Depois da queima: a policromia da Estrige

Após a etapa da queima, criei a camada de policromia, trabalhando a camada de cores inteiramente à mão. Destaquei com cor alguns pontos, como a faixa dos cabelos e os acessórios.
Depois de fixada na base, a Estrige estava pronta. É uma peça para quem gosta de uma decoração com personalidade e aprecia a presença da arte nos ambientes.