Uma equipe alemã de egiptólogos encontrou a peça em 1912, em destroços do que seria o ateliê do escultor real do faraó Akhenaton. O busto foi levado, junto com outras descobertas, para a Alemanha.

Visão frontal do busto colorido de Nefertiti com sua coroa azul característica, exibindo a icônica simetria do rosto.
Visão frontal do busto colorido de Nefertiti com sua coroa azul característica. (Foto: Wikimedia Commons)

Você sabia que o rosto mais elegante do Egito Antigo não foi feito para ser visto pelo público?


Todo mundo reconhece o rosto; quase ninguém conhece sua história.

Escultura em calcário de pequeno porte mostrando o casal real Nefertiti e Akhenaton de mãos dadas, com traços estilizados e formas suaves.
Diferente dos monumentos públicos, este pequeno ex-voto do Museu do Louvre era uma peça de uso privado. Casal real Nefertiti e Akhenaton, 22cm. Museu do Louvre. (Foto: Wikimedia Commons)

Nefertiti, cujo nome significa “A Bela Chegou”, foi a grande esposa real do faraó Akhenaton, conhecido por quebrar modelos no poder e na religião. Criou um culto monoteísta em torno do deus Áton que conferia status divino também à rainha.

Estátua de corpo inteiro de Nefertiti em pé, esculpida em calcário, representando a rainha em uma idade mais madura.
No Museu Egípcio de Berlim, esta figura em pé da rainha com marcas do tempo, mostra que os artistas de Amarna buscavam um certo realismo. (Foto: Wikimedia Commons)

Para instaurar a nova religião criaram uma arte oficial diferente, mais naturalista, em contraste com a tradição milenar da arte egípcia. O Busto de Nefertiti que estamos analisando é parte dos trabalhos de disseminação da nova imagem oficial da rainha-deusa.

A múmia e o túmulo de Nefertiti nunca foram encontrados; vestígios associados a seu nome foram destruídos ou ocultados por motivos políticos.
Por isso, considera-se o Busto de Nefertiti uma peça rara. Um destino triste para uma figura tão bela.

Bloco de pedra esculpido em baixo-relevo mostrando o perfil de Nefertiti com traços marcantes e o queixo pronunciado, estilo artístico de Amarna.
Este bloco de pedra, chamado Talatat, mostra como o estilo visual de Nefertiti era replicado rapidamente para decorar as paredes dos novos templos. Museu de Cleveland. (Foto: Wikimedia Commons)


Curiosidade: Um genro famoso

A rainha Nefertiti tinha parentesco direto com o faraó mais famoso da história, Tutancâmon, casado com uma de suas seis filhas.


Por que é tão famosa?

Close-up do rosto do busto de Nefertiti em Berlim, destacando a pintura preservada, as sobrancelhas arqueadas e os lábios definidos.
O perfil revela o domínio técnico do escultor Tutmés em equilibrar a estrutura interna da pedra com o acabamento final, destacando a pintura preservada. Neues Museum. (Foto: Wikimedia Commons)

Sua fama impactante logo após a descoberta se deve a vários fatores:

  • Representava o mistério e a sofisticação egípcia de forma atraente para a cultura ocidental. Sua presença em revistas, livros e filmes a consagrou como ícone.
  • Seu valor estético e a elegância de suas formas estavam alinhados com uma das artes decorativas da época, o Art Déco.
  • Seu valor de prestígio político tornou-se um “troféu cultural” da Alemanha, disputado pelo Egito.


Ela não nasceu para ser vista, nasceu para ser copiada

Fotografia em preto e branco de 1923 mostrando as ruínas de adobe da oficina do escultor Tutmés no sítio arqueológico de Amarna.
Oficina do escultor Tutmés em Amarna. Foto de 1923. Famosa por ser o local onde foi retirado o Busto de Nefertiti, hoje em Berlim. (Foto: Wikimedia Commons)

A peça foi encontrada nas ruínas da oficina de Tutmés, escultor oficial do faraó Akhenaton. Acredita-se que era um modelo de trabalho, um tipo de protótipo de referência para a produção em série de imagens oficiais para ornamentar templos e edifícios públicos do novo culto.


Curiosidade

Detalhe do olho direito do busto de Nefertiti, mostrando a cavidade ocular preenchida com cristal de rocha e pupila escura.
O realismo do olhar foi alcançado com a incrustação de cristal, uma técnica sofisticada que dava vida à imagem da rainha. (Foto: Wikimedia Commons)

A peça original possui apenas um olho com acabamento, incrustado, feito de cristal de quartzo, com detalhes em cera de abelha tingida e uma fina camada de cristal de rocha polido para sugerir a córnea. O outro olho não foi produzido.


Fatos que reforçam sua função

1. Possui acabamento em apenas um olho e não apresenta a serpente na coroa, indicando que a peça não poderia ser usada em exibição pública.

2. Em sua execução foi utilizado um material menos nobre e mais rápido de trabalhar, com base de pedra comum, calcário, superfície coberta com gesso e pintada.

3. Outro indício é sua sobrevivência à destruição deliberada, já que permaneceu entre outras peças quebradas em um ateliê.

4. Não poderia ter função ritual, pois não era de corpo inteiro e o material não é duradouro e resistente.


Quem fez?

Placa de calcário com desenho a tinta do rosto de Nefertiti e a região dos lábios levemente esculpida em relevo.
Esta peça do Museu Petrie em Londres era um teste de oficina, o mestre escultor seguia o desenho para esculpir. Desenho a tinta sobre calcário. (Foto: Wikimedia Commons)

A arte do Antigo Egito era um trabalho conjunto, realizado por vários artistas e artesãos. O valor do artista era reconhecido, mas seu trabalho servia para a glória do faraó e do Estado, e não para a fama individual.
Para nossa sorte, o Busto de Nefertiti foi encontrado nas ruínas de uma oficina cujo escultor foi identificado. Por isso, podemos honrar seu nome: Tutmés (Thutmose).

Cabeça de Nefertiti esculpida em quartzito marrom com marcações de linhas pretas no rosto para orientar o trabalho de entalhe.
Um flagrante do processo de produção: as linhas em tinta nesta peça do Museu do Cairo serviam de guia para o artesão saber onde remover mais pedra. Descoberta em 1932 na oficina de Tutmés. Outra cabeça inacabada de Nefertiti encontra-se no Museu Egípcio de Berlim. (Foto: Wikimedia Commons)


O que podemos aprender com o Busto de Nefertiti?

Conhecer sua origem como ferramenta de trabalho não diminui seu valor, ao contrário, é um documento técnico raro que nos ajuda a entender o processo de trabalho dos artistas da época.

Representar a beleza de Nefertiti não era um fim em si, mas um recurso para estabelecer uma nova ordem religiosa e de poder.

O busto deixou de ser o retrato de uma rainha egípcia para ser uma peça museológica cujo valor simbólico é enorme. É mais um exemplo de apropriação e ressignificação das esculturas famosas.

Vista lateral do busto de Nefertiti mostrando a inclinação da coroa e a linha elegante do pescoço em contraste com a base da escultura.
De perfil, é possível notar como a inclinação da coroa equilibra o peso visual da peça, uma solução inteligente para manter a escultura estável. (Foto: Wikimedia Commons)


Para organizar o que vimos

  • Nome. Busto de Nefertiti
  • Quem realizou a obra. Atribuída ao escultor Tutmés.
  • Data. c. 1350 a.C.
  • Local original. Ruínas do ateliê do escultor Tutmés, antiga cidade de Amarna, Egito.
  • Localização atual. Neues Museum, Berlim.
  • Material. Pedra calcária revestida com gesso e policromada.
  • Dimensões. 49 cm de altura.


Enfim…

O que mais me impressiona é que um pedaço de gesso pintado, abandonado em um ateliê, tenha virado um ícone de museu de valor incalculável. Um caminho extraordinário percorrido da época dos faraós ao nosso próprio mito da beleza.


Se você gosta de descobrir os segredos práticos de como as esculturas famosas foram feitas, nesta página coloquei os links para acompanhar minhas outras análises. [clique aqui]

Busto de Nefertiti: Qual era sua verdadeira função?

2 ideias sobre “Busto de Nefertiti: Qual era sua verdadeira função?

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