Por trás do cartão-postal do Brasil está um dos projetos de escultura monumental mais ousados do início do século 20


Neste post você vai conhecer:

  • 1. A origem como monumento católico.
  • 2. Os desafios técnicos do projeto.
  • 3. Como o Cristo foi construído.
  • 4. O escultor Paul Landowski.


O essencial para conhecer a obra

Detalhe aproximado da mão do Cristo Redentor mostrando a angulação dos dedos.
Observe a angulação precisa da mão planejada para oferecer menor resistência ao vento. (Foto: Wikimedia Commons)

Inaugurado em 1931, com a presença do então presidente Getúlio Vargas e autoridades religiosas, é um dos locais turísticos mais visitados do país e a imagem do Brasil no exterior.
O local escolhido para instalar o Cristo já era um mirante famoso, assim sua função somava a força de um símbolo religioso à utilidade de um mirante moderno.

O mirante

Construído em 1885 por decisão de dom Pedro II, o mirante de metal conhecido como Chapéu de Sol existiu até 1942, quando foi demolido para ampliar a área de visitação do Cristo. Desde 1884, chegava-se ao Corcovado por trem, ainda hoje o meio de acesso mais tradicional.


Motivação para criar o monumento

A ideia inicial costuma ser atribuída ao padre missionário Pedro Maria Boss, que em 1859 imaginou o Corcovado como pedestal para uma imagem monumental do Sagrado Coração de Jesus, seguindo a tradição cristã de instalar cruzeiros em pontos elevados. Para isso, teria pedido apoio da Princesa Isabel, então sucessora do trono.
A iniciativa foi retomada em 1920 pelo Círculo Católico do Rio de Janeiro, que organizou campanhas de arrecadação. A criação de um monumento com participação da população católica ajudaria a Igreja a reafirmar sua presença em um momento em que o Estado e religião foram formalmente separados.
A construção, custeada exclusivamente por doações privadas, teve início em 1926 em terreno cedido pela União à Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Vista aproximada do peito da estátua destacando o relevo sutil em formato de coração.
O caráter simbólico do coração no peito da estátua pode remeter à ideia original do Sagrado Coração de Jesus. (Foto: Wikimedia Commons)

A quem pertence o Cristo Redentor?

O monumento é um santuário católico que pertence à Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.
A manutenção é realizada pela própria Arquidiocese, com recursos de patrocínios, doações e royalties provenientes do licenciamento de produtos que usam sua imagem. Detém também os direitos autorais do engenheiro e do escultor.

Quem fez a estátua?

Foto preto e branco do escultor Paul Landowski em 1928 posando ao lado da escultura original da mão do Cristo Redentor em seu ateliê
Landowski realizou o modelo do Cristo Redentor e das mãos em seu ateliê em Paris por volta de 1928. (Foto: Wikimedia Commons)

Para viabilizar a construção, a Arquidiocese promoveu um concurso para definir o modelo do monumento. O projeto vencedor foi do engenheiro Heitor da Silva Costa, inicialmente inspirado no Cristo Redentor dos Andes, de composição mais tradicional. Com a colaboração de Carlos Oswald, professor do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, o corpo foi simplificado e passou a incorporar a ideia da cruz por meio dos braços abertos. Com visitas à Europa para estudos e reuniões, o projeto adquiriu o estilo Art Déco que o caracteriza.

A estrutura em concreto armado foi concebida por Silva Costa, com participação do renomado engenheiro francês Albert Caquot, responsável pelo cálculo e pelo projeto da estrutura interna.

A modelagem artística da maquete, da cabeça e das mãos foi realizada em Paris pelo francês Paul Landowski, escultor destacado pelo uso estilizado das formas, seguindo o estilo Art Déco. A cabeça com 3,75 metros e as mãos, com 3,20 metros foram enviadas inteiras ao Brasil. A maquete do corpo, que media 4 metros, foi enviada em partes, reproduzidas em concreto e montadas sobre os andaimes finais. Landowski também concebeu baixos-relevos para a base e a capela interna com episódios da vida de Cristo, não executados por limitações orçamentárias.

O escultor romeno Gheorghe Leonida participou da equipe modelando em gesso o rosto do Cristo, definindo o aspecto mais marcante da escultura. Conhecemos pouco de sua obra posterior, talvez pelo fato que, após a instauração do regime comunista na Romênia, sua produção associada à monarquia foi afastada da atenção pública.
O revestimento em mosaico de pedra-sabão foi uma solução proposta por Silva Costa e executada manualmente por mulheres católicas voluntárias.

Foto preto e branco da cabeça do cristo redentor original colocado no chão antes da montagem
Construção da estátua do Cristo Redentor, cabeça. c. 1930. Anônimo. (Foto: Acervo Brasiliana Fotográfica)

Por que o Cristo Redentor é tão famoso?

  • 1. Tem uma localização privilegiada que oferece uma vista panorâmica do Rio de Janeiro.
  • 2. Representa o cristianismo e é um lugar de peregrinação.
  • 3. Destacou-se nos meios de comunicação da época por sua técnica audaciosa.
  • 4. É um dos principais cartões-postais do Brasil que atrai turistas do mundo todo. Foi eleito uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno e patrimônio da humanidade pela UNESCO.
A elegância dos traços do rosto revelam a afinidade com o estilo Art Déco. (Foto: Wikimedia Commons)

Curiosidade

Parte do maciço rochoso do Corcovado, formado por gnaisse, foi removida com dinamite para receber as fundações do monumento. Trata-se de uma pedra semelhante à usada no Faraó Quéfren Entronizado, trabalhada há cerca de 5.000 anos apenas com as mãos. [clique aqui para ler o post do Faraó Quéfren]
No interior do pedestal, revestido em mármore negro, há uma pequena capela e uma escada em caracol que permite o acesso à cabeça e aos braços.

Como foi feita?

Fotografia antiga em preto e branco da construção do Cristo Redentor com andaimes e começando a estrutura de concreto aparente.
Esta imagem revela o Cristo Redentor sendo erguido como um edifício na década de 1920. (Foto: Wikimedia Commons)
  1. Uma escultura construída como um prédio
    A construção do Cristo Redentor levou mais de dez anos, sendo cerca de cinco dedicados a desenhos, cálculos estruturais e produção de maquetes. Diferente de esculturas monumentais talhadas em rocha maciça, foi erguido em concreto armado, com fundações e pilares, adotando a lógica da engenharia civil. À época, o uso do concreto armado era inovador e oferecia vantagens de custo e logística em relação às grandes estruturas metálicas.
  2. Desafios da construção
    O transporte de materiais e operários até o topo do Corcovado, a cerca de 700 metros de altitude, foi viabilizado pela Estrada de Ferro do Corcovado. A montagem de andaimes junto aos precipícios e em espaço reduzido representou outro grande desafio. Os braços, pontos naturais de tensão, exigiram soluções específicas: vigas internas semelhantes a asas de avião distribuíam o peso e garantiam a estabilidade da escultura.
  3. Revestimento externo em mosaico de pedra-sabão
    Para proteger o concreto das condições climáticas, Silva Costa optou pela pedra-sabão, abundante na região. Para evitar rachaduras, o material foi aplicado em mosaico, com pequenos fragmentos de cerca de 4 cm, colados sobre tecido e assentados na argamassa fresca. O resultado foi uma superfície levemente irregular, capaz de difundir a luz de forma suave, sem brilho excessivo.
Close-up do rosto do Cristo Redentor mostrando a textura formada por milhares de pequenos triângulos de pedra-sabão.
A superfície da estátua é um imenso mosaico de pedra-sabão que protege o concreto contra a intempérie. (Foto: Wikimedia Commons)

Curiosidade

As artesãs e voluntárias católicas colocaram nomes e mensagens no verso dos mosaicos.
A pedra-sabão usada originalmente não existe mais com a mesma cor; reposições são sempre um pouco mais escuras.


Sobre o escultor Paul Landowski

Porta principal do Palácio Piratini com duas esculturas de cada lado representando a Indústria e a Agricultura
As esculturas junto à entrada do Palácio Piratini em Porto Alegre feitas por Landowski antes de esculpir o modelo do Cristo Redentor. (Foto: Wikimedia Commons)

Antes do Cristo Redentor, Paul Landowski já havia trabalhado no Brasil. Em 1910, produziu três esculturas para o Palácio Piratini, em Porto Alegre, obras que, segundo sua biografia, foram decisivas para que mais tarde recebesse a encomenda do Cristo. A aproximação ocorreu por meio do arquiteto francês Maurice Gras, responsável pelo projeto do Palácio, com quem manteve outras colaborações internacionais.
Landowski foi autor de numerosos monumentos e memoriais de guerra na França e no exterior. Entre suas obras mais conhecidas estão a Santa Genoveva da Pont de la Tournelle, em Paris, o Mausoléu de Sun Yat-sen, em Nanjing, e o Muro dos Reformadores, em Genebra.

Mural em uma praça com estátuas em grande escala dos Reformadores Protestantes
Muro da Reforma Protestante em Genebra. Estátuas esculpidas por Paul Landowski em 1917. (Foto: Wikimedia Commons)

A Santa Genoveva, concluída em 1928 e marcada pela estilização Art Déco, é frequentemente apontada como possível referência formal para o manto do Cristo.
Sua trajetória inclui um episódio relacionado ao nazismo, quando foi convocado a depor perante a Sociedade de Artistas Franceses, sendo considerado inocente. Além da produção escultórica, Landowski (1875–1961) teve atuação relevante como professor, dirigindo a Academia da França em Roma e a Escola de Belas Artes de Paris, consolidando também sua influência na formação de escultores do século 20.

Estátua de Santa Genoveva na ponte Tournelle em Paris, imagem estilizada que protege com as mãos uma criança que segura um barco
Estátua de Santa Genoveva na ponte Tournelle feita por Landowski antes de esculpir o modelo do Cristo Redentor. (Foto: Wikimedia Commons)

O que podemos aprender com a obra?

A escultura monumental exige mais do que escala: é preciso pensar na visão à distância, na clareza da silhueta, na estabilidade estrutural e na integração com a paisagem.

O Cristo Redentor também ensina que obras desse porte são sempre construções coletivas e que sua força não está no tamanho, mas na síntese entre intenção simbólica e exigência técnica.


Para organizar o que vimos

Nome. Cristo Redentor
Quem realizou a obra. Projeto do engenheiro Heitor da Silva Costa; escultores Paul Landowski e Gheorghe Leonida; engenheiros, técnicos e artesãs voluntárias.
Data. 1922–1931
Localização. Morro do Corcovado, Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro
Material e técnica. Concreto armado, revestido por pedra-sabão
Dimensões. 30 metros de altura

Visão traseira da estátua do Cristo Redentor mostrando a base e as escadarias externas que levam ao monumento.

Devido à intensa visitação, toda uma estrutura de acesso foi criada para receber as pessoas. O pedestal de oito metros de altura cumpre a função de ancorar a estrutura no solo rochoso do Corcovado e abriga a capela. (Foto: Wikimedia Commons)

Enfim…

Diante do Cristo Redentor, parece que ele emergiu naturalmente do Corcovado, mas conhecer o trabalho necessário para construir uma estátua gigante no topo de um morro, há cerca de 100 anos, acrescenta outra camada de admiração.

Estátua do Cristo Redentor: Como foi construída?

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