A estátua de um homem concentrado, criada por Rodin, se converteu em símbolo da ansiedade existencial.

Ao olhar para O Pensador, muita gente vê um homem sentado, descrito como “símbolo do pensamento”. Mas, quando mudamos o foco para a técnica da escultura, revela-se um processo de criação muito rico, que você vai conhecer agora.

Neste post você vai aprender:

  • 1. Como surgiu a ideia do Pensador
  • 2. Quem foi o modelo para criar a estátua
  • 3. A mente empresarial de Rodin
  • 4. A permissão pós morte do escultor


O essencial para conhecer a obra

O Pensador é uma das esculturas mais conhecidas do escultor francês Auguste Rodin, criada no final do século 19 e exposta ao público pela primeira vez em 1904.

Foto da estátua O Pensador instalada sobre túmulo de granito do escultor Rodin e sua esposa no Museu Meudon
Rodin escolheu sua obra mais emblemática para marcar seu próprio túmulo, símbolo permanente de seu papel como escultor. (Foto: Wikimedia Commons)

Curiosidade

Rodin gostava tanto dessa obra que pediu que uma versão em bronze fosse colocada sobre o próprio túmulo. A escultura acompanha o descanso eterno de seu criador e de sua esposa Rose.

 Fotografia preto e branco de 1905 do perfil do escultor Auguste Rodin posando em frente à sua escultura O Pensador monumental.
O escultor concedeu ao jovem fotógrafo Éduard Steichen livre acesso à casa e ao ateliê para fotografar suas esculturas. (Foto: Wikimedia Commons)

Sobre a autoria

Diferente dos escultores do Egito antigo ou das oficinas medievais, que permaneciam anônimos para atender à religião ou o poder, Rodin assume claramente o papel de autor. Ele assina suas peças e afirma sua visão individual do mundo. Esse protagonismo do artista marca o início da escultura moderna, e os patrocinadores passam a ser República Francesa, empresários e colecionadores privados.

Por que a estátua é tão famosa?

  1. Principalmente por levar a assinatura de Rodin, considerado em sua época o maior escultor vivo. Foi um dos primeiros artistas a entender o poder da divulgação: recebia jornalistas em seu ateliê, mostrava o processo de trabalho e permitia imagens do Pensador em jornais, selos e caricaturas.
  2. A obra foi planejada para espaços públicos, por isso várias cidades desejavam um Pensador como símbolo de modernidade e prestígio cultural.
  3. Sua forma é simples e extremamente reconhecível. Assim como o perfil da Estátua da Liberdade pode ser identificado à distância, a silhueta curvada do Pensador é reconhecida imediatamente.
  4. Diferentes culturas conseguem entender sua linguagem corporal, o que ajudou a torná-la um símbolo duradouro.
 Close-up do rosto e da expressão da estátua O Pensador feita em gesso branco.
Detalhe da versão em gesso revela a tensão do rosto e da mão de O Pensador, modelados a partir do corpo musculoso do boxeador que posou para Rodin. (Foto: Picryl)

A propósito do modelo que posou para o Pensador

Na época, alguns críticos estranharam a musculatura exagerada usada por Rodin para representar um pensador. O artista, porém, buscava a força expressiva de um homem comum.
O escultor contratou como modelo um homem real, Jean-Baptiste Baud, um boxeador da época. Com isso, garantiu que a obra transmitisse uma energia verdadeira, tornando visível o ato de pensar na tensão de cada músculo.

Fotografia panorâmica da versão original em gesso da monumental Porta do Inferno no Museu d’Orsay.
A Porta do Inferno, versão em gesso no Museu d’Orsay feita sob supervisão de Rodin, foi a origem para criar várias obras autônomas. (Foto: Wikimedia Commons)

Para que foi feita?

Ao contrário do que muitos pensam, não foi criada originalmente como uma estátua isolada. Ela foi concebida como parte de uma obra maior e em uma escala pequena, com cerca de 70 cm.

Em 1880, Rodin foi contratado para projetar um grande portal para o futuro Museu de Artes Decorativas de Paris.
Com esse propósito, criou A Porta do Inferno, constituída por várias figuras interligadas. Posteriormente, algumas dessas figuras se tornaram obras independentes, incluindo O Poeta, que ficava na parte superior da porta.
Ao ser ampliada em bronze, a estátua passou a se chamar O Pensador. Quando exposta ao público como obra individual e em tamanho monumental, o sucesso foi imediato, a ponto de ser criada uma petição pública para que o governo francês adquirisse “a obra para o povo de Paris” como símbolo do pensamento livre.

Vista de baixo para cima do Pensador na Porta do Inferno, destacando a figura projetada para frente sobre as outras esculturas.
Vista deste ângulo, fica clara a função da pose: o personagem se inclina para o abismo, como um observador das figuras abaixo. (Foto: Wikimedia Commons)

Como foi feita?

O escultor deixou visíveis as marcas de seus dedos e ferramentas na argila, valorizando o processo de criação.

O trabalho começou com a modelagem em argila feita por Rodin. A partir desse original, foi criado um molde em gesso, que depois foi ampliado por assistentes por meio de um processo mecânico de ampliação.
Em seguida, a peça foi enviada para a fundição. Ali, técnicos derretiam a liga de bronze a altas temperaturas e a vertiam no molde pelo método da cera perdida. Após a fundição, era feito o acabamento final por meio de processos químicos que definiam sua cor, a pátina escura.

Escultura O Pensador de Rodin sendo retirada de uma grande caixa de madeira por funcionarios de um museu em 1956.
A logística de transporte de uma peça em bronze exige manuseio especializado. O Pensador é retirado de sua caixa de madeira para ser colocada no jardim de esculturas do Museu Stedelijk, em 1956. (Foto: Wikimedia Commons)

O bronze

Essa técnica permite preservar com grande fidelidade a superfície criada pelo artista e possibilita a produção de múltiplos exemplares a partir de um mesmo original.

Rodin incentivou a ampla circulação de sua obra, autorizando várias cópias em bronze e mármore.
Pouco antes de sua morte, doou ao Estado francês toda a sua obra, incluindo os direitos de reprodução artística e edições póstumas. Por isso, existem muitos exemplares de O Pensador em bronze, todos autorizados pelo Museu Rodin.

Detalhe da escultura O Pensador integrada à parte superior da Porta do Inferno em uma versão de bronze do Museu Rodin
Originalmente, o Pensador não era uma peça isolada, estava acompanhado por várias figuras atormentadas na Porta do Inferno. (Foto: Wikimedia Commons)

Por que Rodin escolheu essa tema?

O Inferno é a primeira parte do livro Divina Comédia, escrita em 1321 pelo poeta medieval Dante Alighieri. Nela, Dante desce ao inferno, onde encontra personagens históricos e mitológicos que recebem castigos de acordo com a gravidade de suas faltas e com as escolhas feitas em vida.
A viagem serve para Dante, e para o leitor, entender as consequências do mal, atravessar seu próprio “lado obscuro” e se transformar.

Inspirado nessa obra literária, Rodin concebeu A Porta do Inferno. Na parte mais alta do conjunto ficava “O Poeta”, o próprio escritor, inclinado para a frente, concentrado em seus pensamentos e observando as figuras que se contorciam no inferno abaixo.
Rodin era um leitor ávido de Dante. O tema do Inferno lhe deu liberdade para criar uma composição que não seguia as regras tradicionais, focando na representação do movimento e da emoção das figuras. Desejava criar um retrato da condição humana, com suas paixões e tormentos.

Gravura de Gustave Doré para canto 18 de O Inferno, de Dante, mostra Dante e Virgílio olhando para baixo em um penhasco onde há figuras se contorcendo.
As gravuras de Gustave Doré para O Inferno, de Dante, ampliam a compreensão do universo literário que inspirou Rodin na concepção de A Porta do Inferno. (Foto: Wikimedia Commons)

O que podemos aprender com a obra?

  1. As esculturas em bronze não são necessariamente peças únicas como são na pintura. Por serem produto de um processo de reprodução a partir de uma obra modelada pelo artista, podem existir várias “cópias originais permitidas”.
  2. Uma obra de arte pode mudar de propósito. A obra ganhou novos significados ao mudar o lugar onde foi colocada.
  3. A estátua, por si mesma, tem a capacidade de evocar um sentimento em nós, mesmo sem conhecer sua inspiração na literatura ou a importância do escultor. Talvez seja essa capacidade que sustente seu poder como obra de arte.
Detalhe aproximado de uma versão em gesso do Pensador, focando no braço apoiado no rosto e na musculatura tensionada.
As marcas de emendas no gesso revelam como a escultura era montada por partes no ateliê, unindo técnica escultórica e observação anatômica. (Foto: Wikimedia Commons)


Para organizar o que vimos

Nome. O Pensador (Le Penseur)
Artista: Auguste Rodin
Data. Primeira versão, 1880; versões posteriores inclusive após a morte do autor
Localização. Vários exemplares em diferentes países
Material. Bronze, fundido pelo método da cera perdida
Dimensões. 180 cm de altura

Enfim…

Há uma ironia fascinante no fato de que o maior símbolo mundial do intelecto e da filosofia não tenha sido modelado a partir de um acadêmico franzino ou de um gênio acadêmico, mas sim do corpo musculoso de um lutador de boxe profissional.

O Pensador de Rodin: história, técnica e como foi criado

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