De filósofo excêntrico a retrato respeitado nas prateleiras: a trajetória do busto de Sócrates com uma mãozinha amiga da escultura.


Ter esculturas de filósofos em uma biblioteca não é surpreendente hoje em dia. Mas saber como isso aconteceu é muito interessante.

  • Neste artigo você vai aprender:
  • 1. Quem “inventou” o busto de mármore (escultura de cabeças) para agilizar a produção de retratos.
  • 2. Quais foram os primeiros compradores de bustos de filósofos.
  • 3. Quem ajudou a espalhar a moda de ter esculturas de pensadores nas bibliotecas.
  • 4. Como foi feita a primeira imagem de Sócrates sem referências visuais.
  • 5. Por que em Roma havia duas “versões” dos retratos de Sócrates.


O rosto em mármore que os romanos ricos queriam ter em casa

Retrato romano de Sócrates em formato de herma, datado do século 1 d.C., pertencente ao acervo dos Museus Capitolinos, Roma

Cópia romana do século 1 d.C.. A intensa produção de réplicas garantiu que a imagem de Sócrates chegasse até nós. Busto em herma de Sócrates, Museus Capitolinos. (Foto: Wikimedia Commons)

Embora Sócrates tenha vivido na Grécia, seu retrato foi popularizado séculos depois de sua morte.

A obra que analisamos neste artigo, o célebre busto de Sócrates que está nos Museus Capitolinos em Roma, é o retrato mais fiel que a Antiguidade nos legou daquele que foi o mestre de Platão.


O sábio feio: Como os romanos ajudaram a estabelecer o rosto da Filosofia Ocidental

Os romanos produziram grande quantidade de retratos em mármore dos filósofos gregos e que permanecem em museus até os dias de hoje. Por isso, quando imaginamos um pensador da Antiguidade, ele quase sempre vem à nossa mente sob a forma de um busto romano.

Sócrates é o fundador da filosofia ocidental, viveu no século 5 a.C. e foi condenado à morte pelo Estado de Atenas por suas opiniões e atitudes. Muito do que sabemos sobre sua vida, seu pensamento e também sobre sua aparência física vem dos textos do filósofo Platão, seu discípulo.

Sócrates nunca posou para esse busto. O retrato original em bronze foi criado após sua morte por um escultor grego, Lísipo, a partir de descrições literárias. É representado como um homem calvo, de barba desalinhada, nariz achatado e expressão intensa.

Esqueça a beleza ideal dos gregos ao observar o Busto de Sócrates. Seu retrato realista servia para transmitir o caráter sincero do filósofo e sua distância da elite aristocrática. Em outro momento porém, foi modificado para deixar o filósofo “mais aceitável” para a sociedade.


Hall dos Filósofos nos jardins romanos e nos salões dos Papas

Galeria da Sala dos Filósofos nos Museus Capitolinos, exibindo fileiras de bustos usados na decoração de edifícios públicos e residências romanos

Sala dos Filósofos nos Museus Capitolinos em Roma. Reflete o gosto romano por decorar residências e edifícios públicos com retratos de filósofos. (Foto: Wikimedia Commons)

A Sala dos Filósofos era um costume romano de decorar bibliotecas, grandes residências e edifícios públicos com bustos e estátuas de filósofos e poetas. Refletia a admiração da elite romana pela cultura grega e servia para exibir seu status e refinamento.

Séculos depois no Renascimento com a descoberta dessas obras em ruínas romanas, esse costume foi retomado por sua vez para validar o refinamento cultural dos renascentistas. Com o tempo, essas obras passaram a fazer parte de coleções de museus.

Um dos exemplos mais proeminentes é o Hall dos Filósofos nos Museus Capitolinos, em Roma, onde está o Busto de Sócrates que estamos analisando. É uma recriação do que seria uma biblioteca ou jardim de uma rica moradia romana. Reúne bustos atribuídos a figuras como Cícero, Homero e Pitágoras.

Na realidade, muitos desses bustos são reconstruções ou cópias decorativas baseadas em padrões fixos para representar tipos ideais (o filósofo sábio, o poeta cego, etc.).
Assim, não havia um critério arqueológico como pensamos hoje; nem sempre a cabeça correspondia à base e algumas emendas ficavam evidentes.


O que é Busto em Herma?

Escultura em mármore de uma herma de Hermes do século 1 d.C. mostrando o busto da divindade sobre um pilar quadrangular de pedra. Coleção Museu J.Paul Getty

Herma de Hermes, século 1. Mármore. Museu J.Paul Getty. (Foto: Getty’s Open Content Program)

Chama-se busto a representação da cabeça, pescoço e parte dos ombros de um personagem, para focar a atenção em seu caráter. Geralmente apoiado em uma pequena base chamada pedestal.

Os escultores da Antiga Roma usavam um tipo de pedestal alto, reto e sem detalhes chamado herma. Fácil de apoiar em fileiras e de transportar, deixava a obra em uma altura adequada para apreciação. O espaço plano também permitia gravar o nome do filósofo ou palavras do autor.

Fotografia de uma herma decorativa posicionada em um jardim, exemplificando o uso ornamental desse tipo de escultura em ambientes externos

Herma decorativa em jardim. (Foto: Wikimedia Commons)

Ainda podemos ver esse tipo de pedestal em praças, geralmente com um retrato feito em bronze.


Por que os bustos de filósofos são tão famosos?

Vista da Long Room na Biblioteca do Trinity College em Dublin, decorada com uma série de bustos de filósofos em pedestais
A tradição romana perdura: bibliotecas utilizando bustos de pensadores para evocar o ambiente de estudo clássico. Biblioteca do Trinity College, Dublin. (Foto: Wikimedia Commons)

Tornaram-se esculturas famosas por reunirem vários fatores: a importância dos filósofos gregos, a habilidade romana em fazer retratos, a valorização dos nobres ricos nesse tipo de obra, a feliz casualidade de ruínas romanas serem valorizadas por pessoas cultas do Renascimento, incluindo Papas que conservaram as obras em suas coleções.

Também contribuem com a fama a visitação turística nos museus e a atual reprodução de réplicas em materiais mais acessíveis. Seu formato portátil permite ocupar estantes e bibliotecas como ornamentos pessoais.

Herma de Sócrates do século 2 encontrada na Via Appia, exposta sobre base de mármore no Museu Pio-Clementino

Descoberto em uma residência na Via Appia em Roma, demonstra que a elite romana usava os bustos para sinalizar prestígio cultural. Busto de Sócrates. Herma, século 2. (Foto: Wikimedia Commons)

Para que essa obra foi feita?

  • O busto de Sócrates teve funções diferentes segundo a época:
  • Monumento político grego: O primeiro retrato em bronze foi encomendado pelo governo de Atenas cerca de 70 anos após a execução do pensador, para transformar o filósofo em símbolo da virtude intelectual da cidade.
  • Cópia decorativa romana para o mercado de luxo.
  • Decoração com valor intelectual no Renascimento.
  • A tradição migrou depois para academias e universidades europeias.
    Se você tem o busto de um filósofo em sua estante, faz parte desse caminho extraordinário.

Como foi feita?

Esculpido em mármore a partir de um original grego feito em bronze no século 4 a.C. O mármore era o suporte ideal para os romanos nesse período, valorizado pela durabilidade e pela capacidade de receber detalhes e polimento cuidadosos.

O formato de busto surgiu como uma solução prática para a grande demanda por retratos: ao interromper a figura na altura do peito, o escultor concentrava-se no rosto e no cabelo, essenciais para a identificação do personagem, reduzindo tempo e custo.


O que podemos aprender com o busto de Sócrates?

Close-up de um busto de Sócrates integrado à decoração clássica da Biblioteca do Trinity College

A presença inspiradora de Sócrates na decoração clássica da Biblioteca do Trinity College, Dublin. (Foto: Wikimedia Commons)
  • A produção de bustos de pensadores em Roma contribuiu para sua presença em bibliotecas da Antiguidade até os dias de hoje.
  • O busto romano tornou-se o modelo visual da figura de um pensador.
  • Um retrato não precisa ser elogioso para ser potente. As características peculiares do filósofo conferiram autenticidade e reforçaram sua autoridade intelectual e modelo de vida.
  • Também nos ensina que a escultura pode ter um papel decisivo na permanência de alguns símbolos atemporais.

Para organizar o que vimos

Nome. Busto em Herma de Sócrates.
Quem realizou a obra. Desconhecido.
Data ou período de realização. c. século 1 ou 2 d.C.
Localização atual. Sala dos Filósofos, Museus Capitolinos, Roma.
Material e técnica. Escultura (entalhe) em mármore branco
Dimensões. Cerca de 55 cm de altura

Enfim…

Entender o Busto de Sócrates é reconhecer que a escultura clássica atendia a demandas muito concretas e reais. No meu Guia para entender – e apreciar – as Esculturas Famosas, explico em detalhes como a ‘feiura’ ou “beleza” de Sócrates foi uma escolha deliberada dos escultores para atender às diferentes demandas políticas e comerciais da época.

Se você busca uma abordagem da escultura tradicional explicada sem deslumbramentos, no guia encontrará mais caminhos extraordinários percorridos pelas obras e seus artistas.

Sócrates em mármore: origem dos bustos de filósofos

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