Conheça a obra de Boccioni, escultor futurista que trouxe velocidade e materiais inusitados para a arte tridimensional.
Vida rápida e breve de um escultor que idolatrava a velocidade

Integrante destacado do Movimento Futurista, Boccioni é reconhecido por introduzir a escultura nessa tendência.
Para Umberto Boccioni (1882-1916), a modernidade significava movimento, carros de corrida e aviões. Em seus diários de 1907, já escrevia: “sinto a necessidade de pintar o novo, o fruto do nosso tempo industrial”.
Contudo, Boccioni percebeu que a modernidade estava na percepção do mundo e não necessariamente em seu aspecto material. Assim, seu objetivo passou a encontrar formas inéditas para traduzir as sensações e comportamentos da vida moderna.
Reforçando sua ruptura com a tradição, seu grito de guerra era: “Abaixo o passado, da Grécia a Rodin!”

Como “movimentar” a escultura?
A partir de 1911, Boccioni dedicou-se à escultura e publicou o Manifesto Técnico da Escultura Futurista. Seu desafio era criar obras que não fossem objetos isolados, mas formas vivas que interagissem com o espaço.
Em suas reflexões manifestou que “… não existe em todos os museus do mundo um quadro ou um desenho adequado de um homem que foge ou que corre”.
A criação de figuras caminhando seria o modo que Boccioni encontrou para expressar o movimento na escultura. Produziu uma série de esculturas, todas feitas em gesso, representando a figura humana em deslocamento no espaço, numa tentativa de demonstrar mais claramente a integração do objeto com o espaço circundante.
Sua escultura mais famosa

Formas únicas de continuidade no espaço (1913) é uma das obras mais famosas do século 20, um ícone da História da Escultura moderna.
Como vimos, Boccioni celebrava o movimento como metáfora da vida moderna, para ele um carro de corrida era mais belo que a Vitória de Samotrácia. Parece que em “Formas únicas”, Boccioni tentou juntar os dois, a sensação esvoaçante da Vitória com um homem dinamizado pela velocidade que modela e modifica suas formas.

No Brasil, a escultura tem valor especial. Em 1963, Francisco Matarazzo Sobrinho adquiriu o original em gesso e um bronze de fundição póstuma, ambos no acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Embora impactante, ver a escultura no museu me passa uma sensação de peso histórico, com sua monumentalidade e volume.
“Rejeitamos o uso exclusivo de um único material. O escultor pode usar 20 materiais diferentes em uma única obra, para conseguir um emoção plástica”.
Sua técnica escultórica: A escultura polimatérica

Escultura polimatérica em gesso Cabeça+Casa+Luz de 1912, destruída
Além do gesso, Boccioni explorou materiais não-tradicionais em obras que chamou de “polimatéricos”, onde combinava vidro, madeira, couro, ferro, papelão e crina de cavalo na mesma peça.
Em Cabeça + casa + luz (1912) uniu a grade de uma varanda real com a cabeça de gesso de sua mãe. Em União de uma cabeça e uma janela, combinou uma janela de madeira e um olho de cristal. Em Dinamismo de um cavalo veloz + casas (1915), usou madeira, papelão, ferro, cobre e colagens.
Suas experiências integrando fragmentos de diferentes materiais ajudaram a ampliar as possibilidades da escultura.

Escultura em gesso Síntese do Dinamismo Humano de 1913, destruída
Seu material de escultura: o gesso
A maior parte de suas esculturas foi feita em gesso. O material permitia rapidez e experimentação, ideal para expressar diversas direções de um objeto integrado ao espaço.
O gesso também ajudava a incorporar os diferentes elementos agregados, compondo uma superfície contínua nos polimatéricos.

Antigrazioso, 1912, gesso
Observe como a escolha de um material frágil e fugaz como o gesso – em oposição aos materiais duradouros da escultura tradicional – reforçava as ideias de Boccioni.
Fica claro como os materiais e técnicas influenciavam cada decisão do escultor e isso nos ajuda a perceber o processo criativo antes da forma final.
O pensamento escultórico de Umberto Boccioni

Fotografia do escultor Umberto Boccioni de 1914
Conhecemos o pensamento de escultor de Boccioni por suas publicações, especialmente o Manifesto Técnico da Escultura Futurista. Ele propunha destruir a “nobreza” tradicional do bronze e do mármore e reconstruir a escultura sobre novos fundamentos.
Em suas palavras: “Gostaria de apagar todos os valores que conheço para reconstruir sobre novos alicerces! Todo o passado me oprime, quero algo novo!”.
Pontos principais
- Boccioni e o Futurismo: Umberto Boccioni (1882-1916) fez parte do Movimento Futurista e pioneiro em incluir a escultura nessa tendência.
- A importância do gesso: A maior parte de suas esculturas foi feita em gesso, que permitia rapidez e experimentação.
- Esculturas polimatéricas: Explorou materiais diversos, como madeira, vidro, couro e crina de cavalo.
- Obras icônicas: Formas únicas de continuidade no espaço e Antigrazioso.
- Pensamento do escultor: Seus manifestos e escritos defendiam romper com o passado, criando esculturas que refletissem a velocidade da vida moderna.
O que podemos aprender com a obra de Boccioni?

Formas Únicas de Continuidade no Espaço, bronze
Mesmo com uma vida breve, interrompida aos 33 anos durante a Primeira Guerra Mundial, Boccioni deixou um legado na escultura moderna. Com suas tentativas de representar o movimento, alterou a noção de que uma escultura é uma entidade estática e fechada.
Observar como Boccioni fragmentava a superfície e ajustava material e técnica — do gesso aos polimatéricos —, demonstra porque ele trouxe novas possibilidades de expressão na linguagem tridimensional.
E deixa claro, para mim, como o impulso criativo de Boccioni se materializou na escultura através de um diálogo dinâmico entre técnica e pensamento.
Acrescento uma reflexão final. A rejeição de Boccioni ao bronze como um material nobre do passado de certo modo justificou sua exploração de materiais “prosaicos”. A ironia é que sua obra mais icônica, Formas Únicas, deve sua fama às réplicas em bronze que estão espalhadas nos museus e que foram realizadas após sua morte. Mais uma curiosidade da história da escultura.
Acompanhe o blog, estou sempre explicando a escultura e as técnicas e materiais que escultores e escultoras usaram ao longo da história da escultura.
Considere ler também este post onde trago uma das Curiosidades da escultura:
Francisco Matarazzo, aliás Ciccillo Matarazzo
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