Conheça a obra de Boccioni, escultor futurista que trouxe velocidade e materiais inusitados para a arte tridimensional.


Vida rápida e breve de um escultor que idolatrava a velocidade

Escultura futurista em bronze do escultor Umberto Boccioni Formas Únicas de Continuidade no Espaço
Formas Únicas de Continuidade no Espaço é sua obra mais famosa

Integrante destacado do Movimento Futurista, Boccioni é reconhecido por introduzir a escultura nessa tendência.

Para Umberto Boccioni (1882-1916), a modernidade significava movimento, carros de corrida e aviões. Em seus diários de 1907, já escrevia: “sinto a necessidade de pintar o novo, o fruto do nosso tempo industrial”.

Contudo, Boccioni percebeu que a modernidade estava na percepção do mundo e não necessariamente em seu aspecto material. Assim, seu objetivo passou a encontrar formas inéditas para traduzir as sensações e comportamentos da vida moderna.

Reforçando sua ruptura com a tradição, seu grito de guerra era: “Abaixo o passado, da Grécia a Rodin!

Escultura em gesso patinado de Umberto Boccioni escultor futurista Antigrazioso de 1912
Antigrazioso, 1912, gesso patinado


Como “movimentar” a escultura?

A partir de 1911, Boccioni dedicou-se à escultura e publicou o Manifesto Técnico da Escultura Futurista. Seu desafio era criar obras que não fossem objetos isolados, mas formas vivas que interagissem com o espaço.

Em suas reflexões manifestou que “… não existe em todos os museus do mundo um quadro ou um desenho adequado de um homem que foge ou que corre”.

A criação de figuras caminhando seria o modo que Boccioni encontrou para expressar o movimento na escultura. Produziu uma série de esculturas, todas feitas em gesso, representando a figura humana em deslocamento no espaço, numa tentativa de demonstrar mais claramente a integração do objeto com o espaço circundante.


Sua escultura mais famosa

Escultura futurista em bronze do escultor Umberto Boccioni Formas Únicas de Continuidade no Espaço
Formas Únicas de Continuidade no Espaço em bronze

Formas únicas de continuidade no espaço (1913) é uma das obras mais famosas do século 20, um ícone da História da Escultura moderna.

Como vimos, Boccioni celebrava o movimento como metáfora da vida moderna, para ele um carro de corrida era mais belo que a Vitória de Samotrácia. Parece que em “Formas únicas”, Boccioni tentou juntar os dois, a sensação esvoaçante da Vitória com um homem dinamizado pela velocidade que modela e modifica suas formas.

Escultura futurista em bronze do escultor Umberto Boccioni Formas Únicas de Continuidade no Espaço
Formas Únicas de Continuidade no Espaço em bronze

No Brasil, a escultura tem valor especial. Em 1963, Francisco Matarazzo Sobrinho adquiriu o original em gesso e um bronze de fundição póstuma, ambos no acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP.

Embora impactante, ver a escultura no museu me passa uma sensação de peso histórico, com sua monumentalidade e volume.

“Rejeitamos o uso exclusivo de um único material. O escultor pode usar 20 materiais diferentes em uma única obra, para conseguir um emoção plástica”.

Sua técnica escultórica: A escultura polimatérica

Escultura em gesso do escultor futurista Umberto Boccioni Head+House+Light de 1912 destruída

Escultura polimatérica em gesso Cabeça+Casa+Luz de 1912, destruída

Além do gesso, Boccioni explorou materiais não-tradicionais em obras que chamou de “polimatéricos”, onde combinava vidro, madeira, couro, ferro, papelão e crina de cavalo na mesma peça.

Em Cabeça + casa + luz (1912) uniu a grade de uma varanda real com a cabeça de gesso de sua mãe. Em União de uma cabeça e uma janela, combinou uma janela de madeira e um olho de cristal. Em Dinamismo de um cavalo veloz + casas (1915), usou madeira, papelão, ferro, cobre e colagens.

Suas experiências integrando fragmentos de diferentes materiais ajudaram a ampliar as possibilidades da escultura.

Escultura em gesso do escultor futurista Umberto Boccioni Synthesis of Human Dynamism de 1913 destruída

Escultura em gesso Síntese do Dinamismo Humano de 1913, destruída


Seu material de escultura: o gesso

A maior parte de suas esculturas foi feita em gesso. O material permitia rapidez e experimentação, ideal para expressar diversas direções de um objeto integrado ao espaço.

O gesso também ajudava a incorporar os diferentes elementos agregados, compondo uma superfície contínua nos polimatéricos.

Escultura em gesso de Umberto Boccioni escultor futurista Antigrazioso de 1912

Antigrazioso, 1912, gesso

Observe como a escolha de um material frágil e fugaz como o gesso – em oposição aos materiais duradouros da escultura tradicional – reforçava as ideias de Boccioni.

Fica claro como os materiais e técnicas influenciavam cada decisão do escultor e isso nos ajuda a perceber o processo criativo antes da forma final.


O pensamento escultórico de Umberto Boccioni

Fotografia do escultor Umberto Boccioni de 1914

Fotografia do escultor Umberto Boccioni de 1914

Conhecemos o pensamento de escultor de Boccioni por suas publicações, especialmente o Manifesto Técnico da Escultura Futurista. Ele propunha destruir a “nobreza” tradicional do bronze e do mármore e reconstruir a escultura sobre novos fundamentos.

Em suas palavras: “Gostaria de apagar todos os valores que conheço para reconstruir sobre novos alicerces! Todo o passado me oprime, quero algo novo!”.


Pontos principais

  1. Boccioni e o Futurismo: Umberto Boccioni (1882-1916) fez parte do Movimento Futurista e pioneiro em incluir a escultura nessa tendência.
  2. A importância do gesso: A maior parte de suas esculturas foi feita em gesso, que permitia rapidez e experimentação.
  3. Esculturas polimatéricas: Explorou materiais diversos, como madeira, vidro, couro e crina de cavalo.
  4. Obras icônicas: Formas únicas de continuidade no espaço e Antigrazioso.
  5. Pensamento do escultor: Seus manifestos e escritos defendiam romper com o passado, criando esculturas que refletissem a velocidade da vida moderna.


O que podemos aprender com a obra de Boccioni?

Escultura futurista em bronze do escultor Umberto Boccioni Formas Únicas de Continuidade no Espaço

Formas Únicas de Continuidade no Espaço, bronze


Mesmo com uma vida breve, interrompida aos 33 anos durante a Primeira Guerra Mundial, Boccioni deixou um legado na escultura moderna. Com suas tentativas de representar o movimento, alterou a noção de que uma escultura é uma entidade estática e fechada. 

Observar como Boccioni fragmentava a superfície e ajustava material e técnica — do gesso aos polimatéricos —, demonstra porque ele trouxe novas possibilidades de expressão na linguagem tridimensional.

E deixa claro, para mim, como o impulso criativo de Boccioni se materializou na escultura através de um diálogo dinâmico entre técnica e pensamento.

Acrescento uma reflexão final. A rejeição de Boccioni ao bronze como um material nobre do passado de certo modo justificou sua exploração de materiais “prosaicos”. A ironia é que sua obra mais icônica, Formas Únicas, deve sua fama às réplicas em bronze que estão espalhadas nos museus e que foram realizadas após sua morte. Mais uma curiosidade da história da escultura.

Considere ler também este post onde trago uma das Curiosidades da escultura:

O futuro é de gesso: as esculturas de Umberto Boccioni

2 ideias sobre “O futuro é de gesso: as esculturas de Umberto Boccioni

Deixe um comentário para Wlad Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *