Neste post, vou mostrar como a cera acompanha a história da escultura surgindo em diferentes épocas como material artístico – e por que ainda desperta interesse.


Afinal, a cera é mesmo um material artístico para escultura?

Quem estuda história da arte aprende pouco sobre a cera. Depois de escrever um post sobre Medardo Rosso — adoro suas esculturas! — quis pesquisar mais sobre esse material e me surpreendi. E quero compartilhar com vocês.

Além de auxiliar nas fundições em bronze, a cera serviu para desenvolver ideias, criar maquetes e, por vezes, como material final.

Escultura em cera de 1878 de Carlo Filippo Chiaffarino chamada Omnia vincit amor

Carlo Filippo Chiaffarino. Omnia vincit amor, 1878, cera


Esculturas em cera na Antiguidade

As culturas antigas utilizaram a cera como material final para muitas finalidades.

  • Egípcios: modelavam em cera figuras de divindades e amuletos para os túmulos.
  • Gregos: além de peças religiosas, produziam brinquedos e bonecas de cera.
  • Romanos: exibidas em cerimonias e procissões fúnebres, as máscaras mortuárias em cera dos ancestrais ocupavam um papel importante na cultura romana.


Idade Média: devoção e simbolismo

Efígie funerária em cera de Elizabeth de York, 1503

Efigie funerária Elizabeth de York, 1503

Na Europa medieval, a cera manteve sua presença. Figuras religiosas eram modeladas para igrejas na forma de ex-votos enquanto máscaras de cera registravam feições de monarcas e personagens importantes em cerimônias fúnebres.
Há evidências de que a prática de criar bonecos de cera de inimigos para fins “mágicos” cravando alfinetes é mais antiga do que imaginamos.


Renascimento e Barroco: a cera como arte refinada

Escultura em cera de Alessandro Abondio, medalhão com retrato da Imperatriz Anna von Tirol, 1618


Alessandro Abondio. Medalhão em cera Retrato Imperatriz Anna von Tirol, 1618.

No Renascimento, a modelagem em cera se tornou ferramenta essencial para os escultores.

Miniatura de cera escultura de Antonio Abondio retratando Henry de Valois, 1590

Antonio Abondio. Retrato de Henry de Valois, miniatura em cera, 1590.
  • Os retratos em medalhões de cera ganharam enorme prestígio, com artistas como Antonio Abondio na corte imperial de Viena e Praga.
  • Retratos em miniatura e policromados encantavam nobres e burgueses. A mistura de pigmentos à cera permitia representar pele, cabelos e texturas com realismo.
  • Criaram-se muitos relevos em cera com temas religiosos, como Gaetano Giulio Zumbo, que também criou em cera os primeiros modelos anatômicos para estudos médicos.

Chama a atenção como a cera se prestava a usos tão diferentes — do sagrado ao cotidiano. Essa versatilidade e facilidade de uso foram razões para a permanência desse material.

Modelos botânicos em cera produzidos entre os séculos XVIII e XIX

Modelos botânicos de cera. Século 18 e 19.


Modellos em cera: estudos e contratos

Relevo de cera Escultura de Giambologna, Cristo frente a Pilatos, 1580

Giambologna. Cristo frente a Pilatos, relevo em cera, 1580.

Na minha opinião, um dos usos mais importantes da cera para a história da escultura foi na criação de modellos — estudos preliminares para obras maiores em mármore ou bronze. Esse uso revela detalhes do processo criativo que nem sempre aparecem nos livros de história da arte.

A maleabilidade da cera permitia ajustes rápidos, drapeados e expressões faciais detalhadas. Grandes artistas como Michelangelo e Bernini recorreram a esse recurso.

Escultura em cera de Michelangelo, modello conhecido como O prisioneiro, século XVI

Michelangelo. O prisioneiro, modello em cera, século 16.

Além do aspecto criativo, havia também o aspecto prático. O modello muitas vezes fazia parte de contratos com clientes. Escultores apresentavam a maquete em cera para aprovação antes de iniciar a obra definitiva. Esse processo deixa claro como a escultura também envolvia negociação e compromisso, não apenas “inspiração”.

Modello em cera escultura de Giambologna representando O Rapto das Sabinas, 1580

Giambologna. O Rapto das Sabinas, modello em cera, 1580.


Exemplos famosos de modellos em cera

  • Michelangelo: “O Prisioneiro”, preservado no Victoria and Albert Museum, mostra como a cera registrava o pensamento do escultor em seu estágio inicial.
  • Giambologna: criou versões em cera do “Rapto das Sabinas” antes de realizar sua célebre escultura em mármore. Alguns destes estudos foram fundidos em bronze na época.
  • Outros artistas como Bernini, Cellini e o próprio Giambologna produziram modellos de retratos e relevos que ainda hoje são estudados como parte fundamental do processo criativo.

A fragilidade do material explica por que poucas dessas peças chegaram até nós. Justamente por isso, quando sobrevivem, são de grande valor histórico.


A cera como material final na escultura moderna

Escultura de cera sobre gesso do escultor Medardo Rosso feita em 1926, título O Homem que Lê

Medardo Rosso, O Homem que Lê, 1926, cera sobre gesso

Alguns artistas deram à cera status de material definitivo.

  • Medardo Rosso (1858–1928): uso impressionista da cera. Suas esculturas captavam efeitos de luz e atmosfera, explorando a translucidez do material.
  • Joseph Beuys (1921–1986): explorou a fragilidade e significados simbólicos ligados à natureza da cera em suas performances.
  • Urs Fischer (1973–): esculturas de cera que derretem com o tempo, tornando-as metáforas da impermanência.
  • Bonnie Rychlak (1951–): produz bueiros urbanos com cera, gerando um paradoxo.

Vejo na variedade de usos uma prova da força expressiva da cera. Para mim, a técnica e o material escolhidos pelo artista expressam tanto quanto a forma final da obra.


Por que a cera importa para quem faz escultura?

Modelos de frutas em cera do século XVIII

Modelos de frutas em cera, século 18.jpg

A cera permitiu estudos rápidos, como os modellos, mas também deu origem a obras finais que conectam à ideia de fragilidade, realismo e transformação
Para quem faz escultura hoje, conhecer esse percurso histórico mostra que o pensamento do escultor não se separa do seu meio: a técnica e o material influenciam diretamente cada decisão da obra.

Molde em cera para produção de esculturas de velas votivas, século XVIII

Molde de cera para velas votivas. Século 18.


Pontos Principais

  • A cera foi usada na escultura desde a Antiguidade, como material intermediário na fundição de metais e em ocasiões, como material final.
  • Modellos em cera permitiam estudar detalhes e aprovar encomendas antes de criar obras maiores.
  • Grandes artistas como Michelangelo, Giambologna e Bernini usaram a cera para criar e planejar suas esculturas.
  • Poucas peças históricas sobreviveram, mas revelam o processo criativo dos escultores.
  • Na arte moderna e contemporânea, exploram-se as qualidades táteis e efêmeras da cera.

Para encerrar

Pensando na prática de um ateliê de escultura, a cera permite trabalhar as ideias em contato direto com a matéria, assim como a argila. Mas tem qualidades intrínsecas que a tornam diferente dos materiais opacos. Talvez seja por isso que ela atravessou séculos.

Atualmente, a cera tem sido substituída por polímeros e materiais sintéticos. No Brasil, poucas esculturas são feitas atualmente com a cera como material final, e a oferta desse material para escultores é limitada.

A Cera na Escultura: História, Técnicas e Artistas

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