Ao usar plásticos na escultura, Naum Gabo revelou que o espaço vazio pode ter o mesmo valor que a massa e o volume.


A mente ajustada a um compasso

O fio do prumo em nossa mão, olhos tão precisos como uma régua e a mente ajustada a um compasso, construímos nossa obra como o engenheiro constrói uma ponte e o universo constrói sua obra.”

Escultor Naum Gabo Construção do Monumento sem titulo em Rotterdam 1957
Construção do Monumento sem título em Roterdã, 1957


Com essa frase, Gabo resume para nós sua visão sobre o rigor que aplicava ao criar suas esculturas. O domínio que adquiriu usando novos materiais não era só técnico: era conceitual e poético.

Naum Gabo Cabeça construtiva 1916 Tate Liverpool
Cabeça construtiva, 1916


Naum Gabo é considerado um dos maiores escultores modernos. Neste post quero destacar como ele redefiniu os limites do que significa fazer escultura. E porque escolheu determinados materiais para dar vida às suas ideias.


Onde termina a escultura e começa o espaço?

Monumento construtivista Bijenkorf em Rotterdam 1957 escultor Naum Gabo
Monumento construtivista Bijenkorf em Roterdã, 1957

Desde a Antiguidade, os escultores já percebiam que suas obras conversavam com o entorno. Nos monumentos públicos, por exemplo, o espaço funcionava como uma moldura para a massa esculpida, mas permanecia fora da obra em si.

Com os escultores modernos podemos ver essa percepção se transformando. O espaço deixa de ser apenas moldura e passa a ser parte integrante da obra, transformando a definição de escultura.

Naum Gabo levou essa ideia ao extremo, se afastou das esculturas maciças e sólidas dos séculos anteriores e marcou uma virada essencial na História da Escultura.


O pensamento de escultor de Gabo

O escultor construtivista Naum Gabo com funcionários na construção do Monumento sem título em Rotterdam 1957
Naum Gabo (no centro) com funcionários na construção do Monumento sem título em Roterdã, 1957


Até agora, os escultores preferiram a massa e negligenciaram um componente tão importante como o espaço… nós o consideramos um elemento escultural absoluto.”

Para ele, o movimento e o espaço vazio eram tão importantes quanto a massa e o volume. Queria mostrar que era possível criar volumes apenas com planos, alcançando volumes espaciais equivalentes às esculturas maciças. Assim, reinventava as técnicas de escultura pela lógica da engenharia.

Em suas primeiras esculturas figurativas eliminou a superfície externa. Criando uma estrutura que deixava a luz penetrar, as sombras definiam as formas e revelavam os espaços internos.

Aos poucos, afastou-se da figura humana. Suas esculturas passaram a refletir ainda mais seu espírito construtivo, situado entre a arquitetura, a geometria e os planos. Depois incorporou placas curvas para sugerir um movimento rotativo em torno de um eixo central, sobre as quais a luz parecia deslizar.

Eu gosto de perceber como Gabo foi ampliando suas pesquisas, elaborando a escultura de modo que o espaço fosse protagonista. Isso mostra como a escultura limitada à forma sólida estava superada.


O material de Gabo

Escultor construtivista Naum Gabo Relevo quadrado
Relevo quadrado

No início, Gabo construiu suas figuras com chapas encaixadas de ferro e madeira compensada.

Ele também explorou fios esticados cruzando superfícies, lembrado as cordas de uma harpa. Esse recurso deixava o volume ainda mais etéreo e permitia à luz atravessar totalmente a escultura. Também experimentou motores em algumas peças para provocar movimento real.

Observar esses detalhes técnicos e as escolhas de materiais nos revelam seu processo criativo. E com isso, valorizamos cada decisão como parte do esforço do artista para afirmar suas ideias.

Tema Esférico Escultura Naum Gabo 1916
Tema Esférico, 1916


A propósito de materiais, sugiro que leia também meu post sobre o uso da cera pelo escultor impressionista Medardo Rosso, outro exemplo marcante de inovação nos materiais de escultura


Naum Gabo em seu tempo

Filho de engenheiro, cresceu em meio à formação científica e técnica da Rússia das décadas de 1920. Alinhado aos ideais do Construtivismo, imaginava a escultura como parte de um projeto de sociedade. Sua trajetória, no entanto, o levou a viver na França e, mais tarde, nos Estados Unidos.

O contexto tecnológico dos Estados Unidos influenciou seu processo criativo na escultura, levando-o a experimentar com materiais industriais inéditos na escultura.

Naum Gabo (1890-1977) nunca deixou de refletir sobre sua prática — como teórico e professor, escreveu e palestrou continuamente, deixando um legado inspirador para quem faz escultura.

Pontos Principais:

  • Um dos maiores nomes da História da Escultura, transformou o espaço vazio em elemento ativo da obra.
  • Com base científica e influenciado pela tecnologia, desenvolveu o Construtivismo, alinhando arte e construção de uma nova sociedade.
  • Defendia que a escultura deveria valorizar o espaço vazio e o movimento tanto quanto a massa sólida.
  • Utilizou materiais inovadores: vidro, fios de náilon e plásticos transparentes como plexiglas e acrílico.
  • Criava volumes a partir de planos, fios e superfícies curvas, rompendo com a tradição de esculturas maciças.


O que podemos aprender com Gabo?

Escultor Naum Gabo Fonte Cinética Revolving Torsion 1972 Londres
Fonte Cinética Revolving Torsion, 1972

Naum Gabo nos ensinou a olhar para o espaço como elemento ativo da escultura. Com o uso de materiais como o vidro e o plástico, sua escultura desenvolveu uma nova superfície – transparente – que ajudou a dissolver os limites físicos da escultura.

Enquanto muitos artistas de sua época refletiam pessimismo após a guerra, Gabo acreditou na construção de um mundo melhor por meio da arte, com lucidez conceitual e segurança técnica. Suas esculturas foram, ao mesmo tempo, pesquisas técnicas e afirmações estéticas. Desta forma, suas ideias influenciaram gerações de profissionais em todo o mundo, incluindo artistas, designers e arquitetos.

Eu considero inspirador ver como seu pensamento de escultor tentou unir ciência, arte e um senso de humanismo. Ele nos mostra que a escultura pode ser mais do que forma e matéria.

* No blog eu uso apenas imagens de domínio público, para conhecer mais obras do artista considere visitar sites de museus. Obrigada.

Naum Gabo: o escultor que construiu o espaço com plástico

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