Como pessoas comuns realizaram uma obra tão gigantesca em argila?

Neste post você vai entender:

  • 1. A logística de produção das peças
  • 2. O tamanho superlativo da obra
  • 3. Para que foi feita
Vista panorâmica da vala principal em Xian, mostrando centenas de soldados enfileirados em corredores de terra.
Fileiras de guerreiros refletem a organização militar real da época. (Foto: Wikimedia Commons)


O essencial para conhecer a obra

É uma das descobertas arqueológicas mais importantes do século 20. Encontrada por acaso em 1974, havia mais de 8.000 soldados, alguns carregando armas verdadeiras e representados segundo suas funções militares (arqueiros, lanceiros, generais etc.).

Também encontraram-se acrobatas, músicos, funcionários civis e cavalos, além de uma carruagem e aves aquáticas em bronze; a representação completa de uma corte imperial.

Encontraram mais de 40.000 armas, incluindo espadas, lanças, dardos e flechas nunca usadas em batalhas, produzidas especialmente para o Exército de Terracota.

Curiosidade

O sítio arqueológico ainda não foi totalmente escavado. O túmulo do corpo do imperador permanece fechado até hoje.

Estátua de um arqueiro ajoelhado em posição de combate, apoiado sobre um dos joelhos com as mãos prontas para segurar um arco.
O arqueiro ajoelhado é um exemplo de estabilidade estrutural. (Foto: Wikimedia Commons)
Detalhe do solado de um guerreiro de terracota mostrando relevos.
Além da quantidade de peças impressiona também o detalhamento das peças. (Foto: Wikimedia Commons)


Por que encomendar 8 mil soldados de argila que ninguém veria?

O Imperador Qin Shi Huang, que viveu em torno de 200 a.C., criou o Exército de Terracota para garantir seu império na eternidade. A construção começou quando ele tinha 13 anos e levou cerca de 38 anos para ser concluída.

A construção seguia a crença pela qual os governantes iniciavam os túmulos assim que ascendiam ao trono e eram sepultados com alguns elementos que davam continuidade a seu poder.

No entanto, a decisão de Qin Shi Huang foi inédita. Como primeiro imperador da China unificada, seu governo se caracterizava pelo controle e padronização (unificou pesos, medidas, escrita) e replicou esse padrão ao construir um palácio completo para o além.

Outros motivos foram sua conhecida obsessão pessoal pela imortalidade, o temor pela morte e a busca pelo “elixir da vida eterna“. Sabe-se que enviava expedições à procura de ilhas com ervas mágicas, consultava alquimistas e consumia pílulas de mercúrio, pois considerava que continham energia vital.
Ironicamente, alguns historiadores sugerem que a causa de sua morte foi o mercúrio.

Curiosidade

Morreu com 49 anos de idade durante uma de suas viagens pelo Império, supostamente enquanto procurava o elixir da imortalidade.

Vários soldados de terracota enfileirados, alguns sem cabeça .
A ausência da cabeça permite entender como era feita a montagem dos corpos e o encaixe final das cabeças já finalizadas. (Foto: Pixabay)


Quem fez o Exército de Terracota?

Cerca de 720.000 trabalhadores teriam atuado no projeto, operários oficiais e artesãos qualificados. Há relatos de que trabalhavam sob severas condições e exigência de sigilo.

Cada figura recebia uma marca com o nome do supervisor ou da oficina responsável, o que sugere um sistema de controle de qualidade e responsabilidade. Isso também indica a participação de artistas ou ateliês para tarefas especiais, como o realismo dos rostos.

Detalhe do rosto de um arqueiro ajoelhado, destacando o olhar focado e a textura da pele esculpida.
O detalhamento do cabelo era uma exigência técnica para diferenciar as etnias e regiões dos soldados que compunham o exército do império. (Foto: Wikimedia Commons)
Close-up frontal de um oficial com expressão séria e bigode fino, detalhes no cabelo e no pescoço.
Embora pareçam únicos, os rostos eram variações de modelos base, adaptados pelos artesãos para dar uma aparência realista ao exército de barro. (Foto: Wikimedia Commons)


Sobre o termo terracota

A técnica que envolve o uso de argila e queima em forno específico é chamada de cerâmica. O produto final recebe diferentes nomes em função do tipo de argila usada ou da queima, assim temos a terracota, a faiança, a porcelana, etc.
O termo terracota é associado a esculturas, relevos, esboços e também descreve elementos decorativos da arquitetura antiga. Já o termo “cerâmica” descreve objetos utilitários esmaltados, como vasos e pratos.

Estátuas de guerreiros de terracota com partes com pigmentos originais preservados em tons de vermelho, rosa e verde nas vestimentas.
Diferente do que vemos hoje, os guerreiros eram totalmente coloridos; a cor servia para identificar a hierarquia e o papel social de cada soldado no exército. (Foto: Wikimedia Commons)

Por que são tão famosos?

O Exército de Terracota é famoso por três motivos principais.

  1. Escala monumental que revela o poder imperial da época.
  2. Técnica de produção que testemunha a capacidade organizacional e técnica dos artesãos chineses do século 3 a.C.
  3. Porque podemos acompanhar em tempo real as pesquisas arqueológicas que estão sendo feitas. Aberto ao público em 2010, o Mausoléu é uma das principais atrações turísticas da China.

Como foram feitos?

Modelo expositivo mostrando a montagem das partes do corpo dos guerreiros a partir de moldes pré-fabricados.
A produção não era artística no sentido moderno, mas sim industrial: as peças eram montadas em série a partir de moldes básicos e depois finalizadas à mão. (Foto: Wikimedia Commons)
Modelo mostrando como era feita a pintura dos guerreiros de terracota nas oficinas.
A pintura era feita nas oficinas após a montagem e queima das estátuas. O sistema de trabalho era em escala colossal. (Foto: Wikimedia Commons)
Modelo expositivo maquete de argila mostrando vários artesãos produzindo os guerreiros de terracota
Modelo expositivo mostrando a participação de vários artesãos na produção dos guerreiros. (Foto: Wikimedia Commons)

Etapas técnicas

  1. Modelagem: Criação dos corpos ocos e das pernas utilizando argila modelada em rolos ou placas.
  2. Modelagem das cabeças e braços usando moldes.
  3. Montagem: Os membros, a cabeça e os detalhes eram depois fixados usando barbotina (argila diluída em água).
  4. Modelagem de detalhes: Criação manual de características faciais, penteados, armaduras e detalhes das vestimentas. Assim garantiam que cada guerreiro tivesse uma identidade visual distinta.
  5. Queima: Cozimento das figuras em grandes fornos a baixa temperatura (em torno de 1000°C) para adquirir dureza e resistência. A queima alterava a cor original da argila amarelo avermelhada, deixando-a cinzenta, que é a cor que vemos hoje.
  6. Pintura: Após o resfriamento, cada figura era pintada com pigmentos minerais vibrantes, mas o pigmento se perdeu com o tempo.
    A cor e os detalhes da vestimenta indicavam a patente do guerreiro. Com as cores originais e carregando armas reais, tornariam a cena mais realista e impressionante do que vemos hoje.
Réplicas modernas de guerreiros de terracota pintadas com cores vibrantes como seriam originalmente.
Recriação ajuda a entender o impacto visual que o exército pintado poderia causar. Totalmente diferente da aparência cinzenta que conhecemos hoje. (Foto: Wikimedia Commons)

Para desmistificar um pouco

É comum comparar a produção dos guerreiros a uma linha de montagem moderna. No entanto, é importante lembrar que na época a China já possuía uma rica tradição de produção cerâmica em larga escala para utensílios e figuras menores.

O uso da roda de oleiro, de moldes e a queima em grandes fornos era uma técnica dominada e a produção de figuras de terracota com fins funerários e rituais já era comum.

Foi justamente essa prática de produção em série que forneceu a base técnica e organizacional para possibilitar o projeto de maior escala dos Guerreiros. A verdadeira inovação foi a logística usada para a produção de uma alta demanda em um prazo relativamente curto, o que revela a inteligência organizacional dos ateliês da época.

Cabeça de um arqueiro dos Guerreiros de Terracota mostrando o detalhamento cuidadoso do penteado e da gola. Notam-se resquícios de cor
Destaque para o detalhamento cuidadoso na descrição do penteado e detalhes de amarração. Percebem-se resquícios da pintura original. (Foto: Wikimedia Commons)

Curiosidade

A construção do mausoléu ultrapassou a morte do imperador. A realização da arquitetura subterrânea e a disposição final das estátuas foram concluídas por seu filho e sucessor, Qin Er Shi e outros oficiais.

O que podemos aprender com essa obra?

Além da importância histórica e cultural, aprendemos muito seguindo quatro eixos:

  1. Como era a organização do trabalho na escultura e a produção em massa da época.
  2. O exército de terracota remete à construção das pirâmides no Egito e o poder dos faraós; ambas as obras exigiram mobilização de recursos humanos e materiais sem precedentes, demonstrando a capacidade do Estado em servir ao desejo de imortalidade do líder.
  3. Demonstra as táticas militares e avanços tecnológicos do Império Qin e indica uma compreensão sofisticada da logística de guerra. Oferece também informações sobre hierarquia social; figuras mais altas representavam oficiais, enquanto as mais baixas representavam patentes inferiores.
  4. Aprendemos sobre as práticas voltadas à imortalidade baseadas nas crenças chinesas da época.
Gravura antiga em preto e branco do Imperador Qin Shi Huang
Gravura do Imperador Qin Shi Huang (Foto: Wikimedia Commons)

Para organizar o que vimos

Nome. Exército de Terracota de Qin Shi Huang
Artista. Oficinas imperiais da Dinastia Qin
Data. c 210 a.C.
Local. Mausoléu do Primeiro Imperador Qin Shi Huang, Xi’an, China. Escavações arqueológicas abertas à visitação e museu.
Material. Terracota feita à mão em moldes e policromada
Dimensões. Altura média 1,80 m, conjunto de mais de 8.000 figuras.

Rosto de um oficial do Exército de Terracota com um barrete detalhado e expressão de autoridade.
Os oficiais eram representados com detalhes refinados e em escala ligeiramente maior, reforçando a hierarquia social. (Foto: Wikimedia Commons)

Enfim

É difícil compreender o esforço gigantesco para criar um Exército de Terracota fictício.

Mas há uma certa magia no fato de que milhões de turistas estão eternizando o desejo do imperador de viver para sempre.

Sobre a prática de começar o próprio mausoléu ainda em vida, também abordamos o assunto no post sobre o Faraó Quéfren [clique aqui para ler o post]

Guerreiros de Terracota: significado e como foram feitos

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