Iluminuras em manuscritos medievais: um universo que sempre me fascinou

Estou no ateliê, entre meus materiais e esboços, e resolvi abrir a porta de um imaginário que não visitava há muito tempo: a das iluminuras medievais.

Entre tantas imagens, o jardim medieval sempre chamava minha atenção e me fazia olhar com mais calma.

Jardim Medieval Iluminura do poema Teseida de Bocaccio1460 Emília no jardim de rosas
Emília no jardim de rosas, Iluminura Teseida de Bocaccio, c. 1460 (imagem: Wikimedia Commons)

No começo era apenas pela beleza. Depois fui pesquisando, relendo meus livros e aos poucos fui aprendendo que aquelas representações tão ricas eram mais do que cenários.


O Jardim Medieval: o Paraíso Terrestre entre muralhas

Naturalmente havia todo um simbolismo profundamente ligado à religião católica da época, que desejava que o jardim fosse um reflexo do paraíso na terra, mas também registrava algo muito humano: a produção de alimentos e o conhecimento da botânica aplicado ao dia a dia.

O jardim de castelos e monastérios também era o espaço de atividades do campo, produção de ervas medicinais e todo tipo de plantio. As pessoas da época tinham um entendimento prático e sofisticado dos ciclos da natureza.


Um jardim para contemplar e para trabalhar

Jardim Medieval Miniatura do manuscrito francês Roman de la Rose c. 1490
Miniatura do manuscrito francês Roman de la Rose c. 1490 (imagem: Wikimedia Commons)

Também gosto de observar as pessoas que aparecem nessas imagens. Como vimos, o jardim era o palco de dois mundos. Em algumas, a nobreza passeia entre flores, conversa, ouve música e vive as histórias do amor cortês e da poesia. Em outras, vemos o trabalho real de quem planta, colhe e cuida da terra.

São pequenos fragmentos da representação de um cotidiano distante que ainda conseguem despertar curiosidade e são muito charmosos.

“Não disse mais nenhuma palavra; entrei logo no jardim pela porta que a Ociosidade abrira; cheio de felicidade, alegria e deleite com o que meus olhos viam, pois parecia um Paraíso terreno, tão encantador era aquele lugar.”

Guillaume de Lorris, em O Romance da Rosa (Século XIII)

Jardim Medieval. Colheita de maçãs. Manuscrito iluminado Tacuinum Sanitatis sec XI
Colheita de maçãs. Manuscrito iluminado Tacuinum Sanitatis sec XI (imagem: Wikimedia Commons)


A presença feminina nas iluminuras medievais, entre o bem e o mal

Tenho um carinho especial pelas representações femininas nesses jardins. Elas aparecem lendo, caminhando, colhendo flores, trabalhando a terra, habitando esses espaços de uma forma muito bonita.

É um tipo de imagem que transmite calma e delicadeza sem deixar de mostrar a vida acontecendo. Mesmo assim, são figuras que não se deixam aprisionar em um único significado, acho que isso que as torna tão poderosas visualmente ainda em nossa época.

Jardim Medieval Pequeno Jardim do Paraíso 1410 Pintor Mestre do Alto Reno
Pequeno Jardim do Paraíso 1410 Pintor Mestre do Alto Reno (imagem: Wikimedia Commons)


Um pequeno jardim ao lado do ateliê

Acho que esse imaginário de certo modo inspira uma parte do ambiente em que vivo.

Jardim Medieval Manuscrito iluminado Tacuinum Sanitatis sec XI
Manuscrito iluminado Tacuinum Sanitatis sec XI (imagem: Wikimedia Commons)

Aos poucos fui cultivando, ao lado do meu ateliê, um pequeno jardim para ser um lugar de quietude e inspiração que acompanhe as estações. Ele me lembra diariamente de agradecer a natureza e a capacidade de perceber o belo.

Jardim com roseira de rosas brancas e estátua branca. Laura Nehr Atelie
Um canto de meu jardim. (imagem: Laura Nehr Atelie)

Essas rosas vieram de meu jardim. Daqui, entre livros, imagens, flores e mesas cheias de esboços que quero começar a compartilhar, nas próximas semanas, um pouco do imaginário que está inspirando minha nova série de trabalhos.

Essa foi a primeira porta que se abriu. Seja bem-vindo ao ateliê.

Jardim com roseira de rosas branca. Laura Nehr Atelie
Amo minhas rosas brancas do jardim. (imagem: Laura Nehr Atelie)
O Jardim Medieval: Entre o Sagrado e a Natureza

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