Criatura Eale (ou Yale), iluminura em bestiário do século 13. (imagem: Wikimedia Commons)

A palavra “bestiário” sempre me fascinou, não sei porquê, antes mesmo de saber exatamente o que era. Fui descobrindo que eram uma espécie de enciclopédias que guardavam o conhecimento da Idade Média sobre animais.

Quando comecei a procurar esses tratados da época medieval não tinha como deixar de sorrir olhando as imagens: representações ingênuas, fantasiosas, misturando animais verdadeiros com seres de fantasia.

E, como todo o imaginário da Idade Média, me fazia questionar sobre essa ingenuidade mesclada com a convicção do próprio conhecimento.

Descobrindo a riqueza do imaginário medieval através dos bestiários

Bestiário medieval em Enciclopédia de historia natural de 1350, autor Jacob van Maerlant
Enciclopédia de historia natural de 1350, autor Jacob van Maerlant. (imagem: Wikimedia Commons)

À medida que fui pesquisando mais, meu olhar mudou um pouco. Ainda me surpreendo com as imagens mas entendo as camadas simbólicas por trás de cada criatura imaginária e as mensagens que elas carregavam.

Se falamos de arte medieval não podemos separar a mentalidade cristã que permeava a compreensão do mundo em uma época antes da imprensa, por isso, quando artistas que iluminavam os manuscritos tentavam representar animais reais se baseavam em textos descritivos. (Feitos às vezes por homens que nunca tinham visto, por exemplo, um elefante…)

Mas agora quero compartilhar um pouco sobre o que andei lendo


Afinal, o que é um Bestiário medieval?

Bestiário medieval Rochester, século 13 com imagens de animais reais e fantásticos
Bestiário medieval Rochester, século 13. (imagem: Wikimedia Commons)

Eram manuais que reuniam o conhecimento da época sobre as criaturas do mundo. Muito populares na Idade Média, traziam ilustrações de animais, reais ou fantásticos.

Cada criatura era descrita e ensinava alguma virtude ou perigo seguindo a crença cristã de que a natureza era um grande livro codificado por Deus.

Há muitos manuscritos de bestiários preservados em bibliotecas e museus, alguns ilustrados de forma suntuosa, como o Bestiário Harley e o Bestiário de Aberdeen.

No bestiário medieval nem tudo precisa ser verdadeiro

Crocota, criatura mítica feroz que pode ter surgido de descrições da hiena-malhada. (imagem: Wikimedia Commons)

Para um leitor medieval, não havia problema em encontrar um dragão na mesma página de um elefante. O importante não era perguntar se aquela criatura existia, mas o que ela ensinava.

Os bestiários mesclavam informações práticas, crenças populares do folclore e a moral católica.


O que ensinavam os animais nos manuscritos medievais?

Bestiario do amor, autor Richard de Fournival que ilustra de forma cômica e poética o amor cortês usando o comportamento dos animais como alegorias
Bestiario do amor, autor Richard de Fournival que ilustra de forma cômica e poética o amor cortês usando o comportamento dos animais como alegorias. (imagem: Wikimedia Commons)

O mais fascinante é que, para um leitor medieval, nenhum desses animais estava ali apenas para decorar as páginas. Cada criatura escondia uma história, um ensinamento ou um símbolo.

O Unicórnio era símbolo da pureza e da Encarnação. Segundo a tradição medieval, apenas uma virgem poderia atrair e capturar um unicórnio.

O Dragão representava o pecado, o caos e as forças do mal. Em muitas imagens medievais, derrotar um dragão simbolizava a vitória do bem sobre o mal.

O Coelho podia simbolizar fertilidade, renovação da vida e vigilância. Em algumas representações também aparecia como lembrança da fragilidade humana e da necessidade de estar atento aos perigos.

O Cachorro associado à fidelidade, à lealdade e à amizade. Frequentemente acompanha santos, nobres e caçadores como símbolo de devoção e confiança.

Aos poucos fui percebendo que essas criaturas não pertenciam apenas às páginas dos manuscritos. Elas pareciam caminhar livremente por todo o imaginário medieval. E em lugares inesperados.


Os seres das iluminuras presentes em todo o mundo medieval

Percebi que o imaginário medieval era muito mais amplo do que estava nos manuscritos. Dos livros religiosos as criaturas passaram aos capitéis de igrejas, a mosteiros, vitrais, esculturas, móveis e pinturas nas paredes.

Também aparecem em trabalhos delicados de objetos domésticos da nobreza, espelhos, cofres e caixas de marfim.

Em tapeçarias, bordados e brasões, cada animal identificava uma linhagem ou família.


Os Bestiários da Idade Média estimularam a imaginação e estão entre nós

Criatura Parandrus, iluminura do Bestiario Rochesterm século 13
Criatura Parandrus, iluminura do Bestiario Rochesterm século 13. (imagem: Wikimedia Commons)

Escritores de ficção fantástica, como J.R.R. Tolkien, mesclaram mitologia, contos de fada e bestiários medievais para suas criações. Também criadores de jogos RPG e da saga no cinema do universo de Harry Potter e Guillermo del Toro beberam nessa fonte.

Não posso esquecer de citar a obra de Jorge Luis Borges “O livro dos seres imaginários”.

Ah, também estão em tatuagens, estamparias e ilustrações infantis.


O que mais me encanta nessa criaturas

Representação de elefante em bestiario medieval levando torees e soldados no lombo
Há muitas representações de elefantes em bestiários medievais. Quando representados com torres no lombo eram associados às Cruzadas e inspirados pelas lendas de conquistas de Alexandre o Grande na Índia antiga. (imagem: Wikimedia Commons)

Acho que essas imagens continuam visualmente poderosas porque não nos parecem realistas. Embora a intenção dos artistas fosse descrever a criatura da melhor maneira que tinham a seu alcance, a meus olhos é encantadora e capta mais minha curiosidade.

Hoje sinto que o olhar quase científico da natureza, que se fortaleceu no Renascimento, atrai menos minha imaginação do que essas criaturas “inventadas”.

Os contornos bem marcados, as cores fortes e chapadas, os corpos em posições estranhas e a mistura entre observação e representação baseada em descrições muito variadas tem um charme inventivo muito peculiar.

E algo que me atrai muito: as expressões dos animais e criaturas são quase humanas. Cenas de um ataque feroz e o olhar da fera parece contemplativo! É muito legal.


O que levo para o ateliê sobre os bestiários?

Livro de modelos manuscrito da época Tudor usado como referência visual por artesãos para criar bordados, tapeçarias, entalhes em móveis ou decorações arquitetônicas.
Livro de modelos com pouco texto e muitas imagens usado como referência visual por artesãos para criar bordados, tapeçarias, entalhes em móveis ou decorações arquitetônicas. (imagem: Wikimedia Commons)

Olhar e pesquisar sobre esse universo enorme dos bestiários evoca em mim algo mais profundo, a liberdade de criar usando a ornamentação e representar sem preocupações anatômicas ou simetria.

Essas criaturas parecem ter saído de um sonho, mesclam natureza e fantasia de uma maneira intensa, me dão vontade de criar peças que contem uma história inteira.
Inspirada por esse “espírito” dos artistas medievais vou começar a compartilhar minha nova série de esculturas e relevos em breve.

Criaturas dos Bestiários Medievais invadiram meu ateliê

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *