Os livros medievais ilustrados que inspiram meu imaginário no ateliê.

Sempre amei livros
Herdei de meus pais esse amor pelos livros. Meu pai, minha irmã e eu sempre fomos “ratos de sebo”. Um passeio legal era andar pelas livrarias de livros usados e voltar para casa com um livro interessante, de preferência barato e com uma capa bonita.
Meu maior interesse sempre foi a arte. Agora, mergulhada nas imagens da Idade Média, fico imaginando como seria folhear um daqueles maravilhosos manuscritos iluminados.
Fico imaginando seu peso devido às capas grossas com detalhes em metal e as folhas de pergaminho, feitas de lâminas finas de pele de animais.
Também por força do ofício, penso como seria escrever e pintar nessa superfície.
Algo mudou completamente minha percepção sobre os livros medievais
Agora que bibliotecas do mundo inteiro digitalizaram essas maravilhas e as disponibilizaram na internet, minha admiração pelas iluminuras aumentou ainda mais. Não vemos apenas a fotografia de uma imagem. Podemos ver cada página, observar rugas e manchas na superfície. Costuras. Marcas do tempo.
Nos últimos meses venho pesquisando esses livros com mais atenção. Quanto mais descubro sobre eles, mais compreendo por que continuam alimentando meu imaginário aqui no ateliê. Compartilho a seguir algumas das descobertas que mais me encantaram.
Afinal, o que é um manuscrito iluminado?

Antes de continuar, vale explicar rapidamente o que é um manuscrito medieval. Manuscritos medievais são livros ou documentos escritos à mão, produzidos tipicamente entre os séculos 5 e 15. Antes da invenção da imprensa, em 1450, as cópias de livros eram feitas manualmente. Um escriba obtinha um livro para copiar e reescrevia minuciosamente cada palavra, utilizando tinta e penas de aves.
Eram escritos em velino (pele de bezerro) ou pergaminho (pele de ovelha ou cabra). As peles passavam por processos de limpeza, esticamento, raspagem e clareamento com giz para proporcionar páginas claras, resistentes e lisas para a escrita. Produzir um único volume podia levar meses ou até anos de trabalho.
Após a iluminação (etapa dos desenhos, pinturas e acabamentos em ouro), as páginas eram dobradas, costuradas umas às outras e encadernadas entre capas de madeira ou couro. Frequentemente, fechos de metal ou tiras de couro mantinham o livro fechado.

No início da Idade Média, os monges eram os únicos produtores de manuscritos iluminados e copiavam os livros principalmente para uso no culto religioso. A sala onde trabalhavam chama-se “scriptorium”. Posteriormente, aumentou a demanda por livros de outros assuntos e sua produção passou também a ser feita nas cidades, por oficinas comerciais que contratavam escribas e iluminadores.
Sempre lembro de uma das cenas do filme O Nome da Rosa, baseado no romance de Umberto Eco. O scriptorium aparece como um lugar silencioso e fascinante, onde monges copiam manuscritos enquanto uma série de assassinatos transforma os livros no centro de uma grande investigação. Vale a pena assistir!
O que é “iluminar” um livro?
A palavra “iluminura” vem do latim “que recebeu luz”. Para que um livro fosse verdadeiramente iluminado, ele precisava ser decorado com ouro. O ouro era geralmente aplicado em folhas extremamente finas ou com tinta de ouro em pó.

Sua decoração incluía pequenas cenas pintadas (chamadas de miniaturas), bordas detalhadas, letras capitulares ornamentadas e pinturas elaboradas que podiam ocupar a página inteira.
Estas decorações ilustravam o texto e ajudavam a guiar o leitor por ele, ampliando seu significado. As imagens eram especialmente importantes porque, na Idade Média, muitas pessoas, inclusive aquelas que tinham acesso aos manuscritos, não sabiam ler.
O que mais me surpreendeu pesquisando sobre livros medievais
A variedade de assuntos, antes eu imaginava que todos os livros medievais eram de uso religioso, mas todo o conhecimento da Europa medieval foi escrito dessa forma.

Inclusive os de temática religiosa podiam ser feitos de encomenda para determinado fiel como um objeto refinado para colecionar. Livros de devoção privada, belíssimos e ricamente iluminados frequentemente eram oferecidos como presentes.
Quanto mais pesquisava, mais eu percebia que a palavra “manuscrito medieval” escondia um universo inteiro.
Embora fossem copiados à mão, muitos textos circularam amplamente. Um mesmo livro podia existir em dezenas ou centenas de exemplares produzidos em diferentes scriptorium espalhados pela Europa medieval.
Não existia um único tipo de livro medieval
Havia livros destinados às orações diárias (chamados Livro de Horas), enciclopédias, tratados científicos, livros jurídicos, romances de cavalaria, como os do Rei Arthur e de amor cortês, livros de história, calendários agrícolas e muitas outras obras. Cada uma revela um aspecto diferente da vida medieval e continuam nos inspirando.

Além de tratados de animais reais e imaginários, os Bestiários, que pedem um post exclusivo!
Também em outro post vou falar dos desenhos nas margens das iluminuras, talvez os mais divertidos, com coelhos com espadas, caracóis enfrentando cavaleiros e todo tipo de criaturas fantásticas nas margens das páginas. Muitas dessas imagens estão inspirando hoje minhas esculturas.
Livros medievais como obras de luxo

Os manuscritos mais luxuosos também eram presentes diplomáticos, presentes de casamento entre famílias nobres ou demonstrações de prestígio político dados a reis e príncipes.
Sua execução podia durar meses e até anos, eram decorados com ouro, encadernados em couro, veludo e metais preciosos.
O que levo desta pesquisa para o ateliê
Gosto da Idade Média como repertório imaginativo.
Não é apenas beleza e figuras curiosas. Depois de conhecer melhor esses manuscritos, passei a olhar para eles como objetos feitos lentamente, por muitas mãos, com a confiança nas próprias crenças e seguros de seu conhecimento.
Talvez seja esse paradoxo que mais me inspira: a confiança no próprio conhecimento, sua visão de mundo e a convicção de que o mundo podia ser compreendido e representado.

Mas, o fascínio das figuras e da representação dos símbolos ainda alimenta muito minha imaginação. E me faz desejar produzir algo encantador, lentamente, com atenção e o desejo de produzir algo que seja precioso para alguém.
Às vezes me pergunto se não nos encantamos tanto com o imaginário medieval porque ele nos lembra de uma maneira de olhar para o mundo que tem várias camadas de simbolismos e significados, longe do utilitarismo atual.
Não porque desejemos voltar ao passado, mas porque talvez ainda desejemos viver cercados por objetos, jardins, animais e histórias que pareçam dizer mais do que são.
É esse espírito dos artistas medievais que mexeu comigo, que me inspirou a produzir novas esculturas e novos relevos.