“Planejado como um cenário para envolver os fiéis na paisagem mineira, o conjunto dos Profetas consagra o talento do maior escultor do período colonial. Foi a última grande obra do Aleijadinho. Após concluir as esculturas com a ajuda de assistentes, retirou-se para sempre em Vila Rica.”


O essencial para conhecer a obra

O conjunto dos Profetas é composto por 12 estátuas monumentais esculpidas em pedra-sabão que fazem parte do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, Minas Gerais.
O Santuário abriga a igreja, os Profetas em suas escadarias e as capelas que ilustram a Via Crucis.

Vista da ladeira de acesso ao santuário com capelas laterais e a igreja ao fundo no topo da colina.
O projeto cria uma experiência envolvente na caminhada em direção ao adro. (Foto: Wikimedia Commons)


Quem representam?

São mensageiros do Antigo Testamento que anunciam a vinda do Cristo. São quatro profetas importantes: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, além de oito profetas menores, Baruc, Oséias, Joel, Abdias, Amós, Jonas, Habacuque e Naum.
Cada estátua segura nas mãos um rolo de pergaminho com seu nome e um texto sobre sua profecia.

Vista frontal da fachada da igreja e da escadaria simétrica ornamentada com as estátuas dos doze profetas.
Disposição simétrica do adro: solução artística para organizar as 12 esculturas no espaço. (Foto: Wikimedia Commons)


Por que são tão famosos?

  1. Congonhas é chamada de “Cidade dos Profetas” por sua presença. É uma das principais atrações turísticas do estado, atraindo grande público por sua riqueza artística e simbólica.
  2. Sua disposição como se fosse um cenário, com personagens bíblicos em tamanho natural em um espaço religioso aberto e integrado à natureza, cria um impacto memorável nos visitantes.
  3. Quando a arte barroca voltou a ser valorizada pelos historiadores e artistas brasileiros no início do século 20, Aleijadinho tornou-se referência da arte desse período e ampliou sua fama.
  4. O conjunto escultórico do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos é considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Conjunto de estátuas dos profetas dispostas sobre os muros das escadarias da igreja Bom Jesus de Matosinhos
Posicionados estrategicamente nas colunas da escadaria, os profetas funcionam como anfitriões. (Foto: Wikimedia Commons)


Profetas vestidos à moda turca?

Durante um período na arte europeia, as roupas e os gestos dos Profetas se baseavam em gravuras de encenações teatrais de histórias que anunciavam a vinda do Cristo. Cada ator segurava um rolo com suas predições e usava roupas exóticas para sugerir uma origem distante.
Através de gravuras, Antônio Francisco Lisboa conheceu esse modo de representar, que usou para esculpir os profetas.

Os mesmos atributos são observados nas estátuas-coluna de Chartres. Leia o post completo


Para que foram feitos?

Funcionavam como figuras de autoridade espiritual para acolher e guiar os peregrinos que chegavam ao Santuário.
Traziam o fiel para os ritos e reflexões da Igreja Católica, através de seu impacto emocional e visual.
A Irmandade do Santuário pediu a criação das 12 esculturas em pedra-sabão para a igreja, que já estava pronta e com os espaços reservados para as estátuas. Foram feitas durante cinco anos e finalizadas em 1805.

Os Profetas fazem parte de uma classificação de Tipos de Escultura pela função, que são apresentados aqui.


Sobre Antônio Francisco Lisboa (conhecido como Aleijadinho)

Antônio Francisco Lisboa (1730–1814) foi um brilhante escultor, reconhecido no Brasil como artista símbolo da arte sacra colonial. Na época, Minas Gerais oferecia um ambiente favorável para aplicar seu talento. Seu convívio com as ordens religiosas e o conhecimento das Escrituras e das ilustrações da Bíblia favoreceram que ele fosse tão requisitado.
Soube traduzir com estilo próprio a dramaticidade das imagens religiosas europeias que eram trazidas pelo clero como modelos.
Explorou as propriedades da pedra-sabão, um material disponível e macio para esculpir, e gerenciou um canteiro de obras escultóricas, atendendo às irmandades religiosas ricas de Minas Gerais, para ocupar um espaço único na arte do Brasil colonial.

Detalhe do rosto do profeta Amós com olhos amendoados e feições bem definidas na pedra.
Os olhos amendoados do profeta Amós demonstram o estilo do escultor. (Foto: Wikimedia Commons)


Por que usaram esse material?

No Brasil, a pedra-sabão é associada à arte colonial religiosa porque era abundante na região de Minas Gerais, fácil de extrair e esculpir e relativamente macia, o que a tornava uma escolha prática e acessível para os artistas locais.
Plasticamente muito bonita, era usada em ornamentos das fachadas de igrejas. Porém, sua escolha para esculpir um conjunto monumental de estátuas que ficariam ao ar livre foi excepcional.

Vista de ângulo inferior da estátua do profeta Isaías destacando o trabalho de escultura nas mãos
Profeta Isaías. (Foto: Wikimedia Commons)


Curiosidade

No espaço aberto, a pedra-sabão das esculturas sofre desgaste e exige cuidados permanentes de conservação. Considerou-se proteger as esculturas em um museu e substituí-las por réplicas, mas a opinião pública tem sido contrária.

Close-up do rosto de uma estátua de profeta mostrando marcas de erosão e desgaste na pedra-sabão.
A superfície degradada do profeta Jeremias revela a vulnerabilidade da pedra-sabão no exterior. (Foto: Wikimedia Commons)


O debate sobre autoria das imagens

Na visitação local aos Profetas, é comum o debate sobre eventuais erros de proporção feitos por assistentes ou qual estátua teria sido totalmente executada pelo artista.
Esse debate, porém, está “contaminado” pela ideia do artista moderno. Por isso, é importante entender como funcionava a escultura tradicional.
Na época do Aleijadinho, o clero era muito pragmático quando contratava um escultor. O mestre escultor era o responsável pelo projeto visual, pela contratação das equipes e por entregar no prazo o que foi estipulado.
O prestígio do escultor é que garantia a encomenda, por isso as partes mais visíveis e importantes da obra ficavam a seu cargo ou ao assistente mais qualificado. Na época, estava claro que a execução coletiva era o único jeito de produzir esculturas maiores.

 Detalhe da estátua de Jeremias focando na proporção reduzida do braço que segura o papiro.
O uso das proporções evidencia que o conjunto foi um trabalho coletivo, envolvendo assistentes com diferentes níveis de habilidade técnica. (Foto: Wikimedia Commons)
Detalhe aproximado de uma emenda horizontal em uma das estátuas de pedra-sabão.
O corte horizontal sugere um método prático de montagem para blocos de grande escala. (Foto: Wikimedia Commons)


O que podemos aprender com os Profetas de pedra?

• Aprendemos que Lisboa, com sua destreza, mesmo diante dos limites impostos pelas encomendas, elevou a pedra-sabão ao status de material escultórico figurativo de qualidade.
• Reconhecemos qualquer escultura de Antônio Francisco Lisboa pelas características faciais que as tornam inconfundíveis. Isso nos ensina como a linguagem da escultura revela o olhar do artista.
• Os Profetas constituem um legado impressionante do talento de um escultor do século 18 que, sem jamais sair de Minas Gerais, soube aproveitar o material de referência disponível, livros e gravuras de diferentes lugares e épocas, para criar uma expressão própria, que refletia a realidade de seu tempo e de sua cultura.

Mão de um profeta segurando uma pena de escrita com detalhamento das dobras das vestes.
O dinamismo nas vestes e o detalhe da pena demonstram como o ateliê buscava conferir movimento e vida na pedra-sabão. (Foto: Wikimedia Commons)

Para organizar o que vimos

Nome. Conjunto dos Doze Profetas
Artista. Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho
Data. c. 1800–1805
Localização. Adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais
Função e significado. Integrar o percurso devocional do santuário, transmitindo mensagens morais e proféticas por meio de figuras religiosas voltadas ao público.
Material. Escultura (entalhe) em pedra-sabão.
Dimensões. Entre 1,8 e 2,0 metros.

close-up de mãos esculpidas em pedra-sabão destacando a expressividade e o entalhe dos dedos.
Havia a intenção de refinar o trabalho escultórico nos detalhes. (Foto: Wikimedia Commons)
Rosto de profeta com nariz afinado e barba dividida, estilo característico do escultor Aleijadinho.
O detalhamento da barba dividida e o nariz afilado aproximam as figuras do estilo gótico tardio. (Foto: Wikimedia Commons)

Enfim…

Os Profetas do Aleijadinho são um marco absoluto da escultura no Brasil. Impossível não ficar maravilhados frente às suas esculturas na paisagem mineira.

capa do ebook Guia para Entender as Esculturas mais Famosas
Profetas do Aleijadinho explicados na escultura colonial

6 ideias sobre “Profetas do Aleijadinho explicados na escultura colonial

  • 20 de março de 2026 em 19:36
    Permalink

    Laura, que leitura gostosa, fácil e rápido entendimento, até prá mim que estou com dificuldades de leitura. Não tinha ideia dessas esculturas, sempre ouvi falar do Aleijadinho, mas sempre de forma superficial. Excelente explicação e análise detalhada destas obras. Fiquei impressionada com o “desgaste” com o tempo em ambos os sentidos rsrs . Muito obrigada. Tânia sua fã e ex-aluna, na verdade, sempre sua aluna

    Resposta
    • 20 de março de 2026 em 20:50
      Permalink

      Tânia, obrigada pelo interesse e pelo carinho. Gostei de sua apreciação, feliz de saber que foi valioso. Acompanhe que vem mais assuntos interessantes.

    • 15 de abril de 2026 em 12:23
      Permalink

      Maravilhoso trabalho. Uma aula de arte carregad a de significado e beleza.

    • 17 de abril de 2026 em 14:00
      Permalink

      Obrigada Gustavo, me motivas a compartilhar mais. É impossível não se emocionar frente à obra de Aleijadinho.

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