“Planejado como um cenário para envolver os fiéis na paisagem mineira, o conjunto dos Profetas consagra o talento do maior escultor do período colonial. Foi a última grande obra do Aleijadinho. Após concluir as esculturas com a ajuda de assistentes, retirou-se para sempre em Vila Rica.”
O essencial para conhecer a obra
O conjunto dos Profetas é composto por 12 estátuas monumentais esculpidas em pedra-sabão que fazem parte do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, Minas Gerais.
O Santuário abriga a igreja, os Profetas em suas escadarias e as capelas que ilustram a Via Crucis.

Quem representam?
São mensageiros do Antigo Testamento que anunciam a vinda do Cristo. São quatro profetas importantes: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, além de oito profetas menores, Baruc, Oséias, Joel, Abdias, Amós, Jonas, Habacuque e Naum.
Cada estátua segura nas mãos um rolo de pergaminho com seu nome e um texto sobre sua profecia.

Por que são tão famosos?
- Congonhas é chamada de “Cidade dos Profetas” por sua presença. É uma das principais atrações turísticas do estado, atraindo grande público por sua riqueza artística e simbólica.
- Sua disposição como se fosse um cenário, com personagens bíblicos em tamanho natural em um espaço religioso aberto e integrado à natureza, cria um impacto memorável nos visitantes.
- Quando a arte barroca voltou a ser valorizada pelos historiadores e artistas brasileiros no início do século 20, Aleijadinho tornou-se referência da arte desse período e ampliou sua fama.
- O conjunto escultórico do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos é considerado Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Profetas vestidos à moda turca?
Durante um período na arte europeia, as roupas e os gestos dos Profetas se baseavam em gravuras de encenações teatrais de histórias que anunciavam a vinda do Cristo. Cada ator segurava um rolo com suas predições e usava roupas exóticas para sugerir uma origem distante.
Através de gravuras, Antônio Francisco Lisboa conheceu esse modo de representar, que usou para esculpir os profetas.
Os mesmos atributos são observados nas estátuas-coluna de Chartres. Leia o post completo
Para que foram feitos?
Funcionavam como figuras de autoridade espiritual para acolher e guiar os peregrinos que chegavam ao Santuário.
Traziam o fiel para os ritos e reflexões da Igreja Católica, através de seu impacto emocional e visual.
A Irmandade do Santuário pediu a criação das 12 esculturas em pedra-sabão para a igreja, que já estava pronta e com os espaços reservados para as estátuas. Foram feitas durante cinco anos e finalizadas em 1805.
Sobre Antônio Francisco Lisboa (conhecido como Aleijadinho)
Antônio Francisco Lisboa (1730–1814) foi um brilhante escultor, reconhecido no Brasil como artista símbolo da arte sacra colonial. Na época, Minas Gerais oferecia um ambiente favorável para aplicar seu talento. Seu convívio com as ordens religiosas e o conhecimento das Escrituras e das ilustrações da Bíblia favoreceram que ele fosse tão requisitado.
Soube traduzir com estilo próprio a dramaticidade das imagens religiosas europeias que eram trazidas pelo clero como modelos.
Explorou as propriedades da pedra-sabão, um material disponível e macio para esculpir, e gerenciou um canteiro de obras escultóricas, atendendo às irmandades religiosas ricas de Minas Gerais, para ocupar um espaço único na arte do Brasil colonial.

Por que usaram esse material?
No Brasil, a pedra-sabão é associada à arte colonial religiosa porque era abundante na região de Minas Gerais, fácil de extrair e esculpir e relativamente macia, o que a tornava uma escolha prática e acessível para os artistas locais.
Plasticamente muito bonita, era usada em ornamentos das fachadas de igrejas. Porém, sua escolha para esculpir um conjunto monumental de estátuas que ficariam ao ar livre foi excepcional.

Curiosidade
No espaço aberto, a pedra-sabão das esculturas sofre desgaste e exige cuidados permanentes de conservação. Considerou-se proteger as esculturas em um museu e substituí-las por réplicas, mas a opinião pública tem sido contrária.

O debate sobre autoria das imagens
Na visitação local aos Profetas, é comum o debate sobre eventuais erros de proporção feitos por assistentes ou qual estátua teria sido totalmente executada pelo artista.
Esse debate, porém, está “contaminado” pela ideia do artista moderno. Por isso, é importante entender como funcionava a escultura tradicional.
Na época do Aleijadinho, o clero era muito pragmático quando contratava um escultor. O mestre escultor era o responsável pelo projeto visual, pela contratação das equipes e por entregar no prazo o que foi estipulado.
O prestígio do escultor é que garantia a encomenda, por isso as partes mais visíveis e importantes da obra ficavam a seu cargo ou ao assistente mais qualificado. Na época, estava claro que a execução coletiva era o único jeito de produzir esculturas maiores.


O que podemos aprender com os Profetas de pedra?
• Aprendemos que Lisboa, com sua destreza, mesmo diante dos limites impostos pelas encomendas, elevou a pedra-sabão ao status de material escultórico figurativo de qualidade.
• Reconhecemos qualquer escultura de Antônio Francisco Lisboa pelas características faciais que as tornam inconfundíveis. Isso nos ensina como a linguagem da escultura revela o olhar do artista.
• Os Profetas constituem um legado impressionante do talento de um escultor do século 18 que, sem jamais sair de Minas Gerais, soube aproveitar o material de referência disponível, livros e gravuras de diferentes lugares e épocas, para criar uma expressão própria, que refletia a realidade de seu tempo e de sua cultura.

Para organizar o que vimos
Nome. Conjunto dos Doze Profetas
Artista. Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho
Data. c. 1800–1805
Localização. Adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais
Função e significado. Integrar o percurso devocional do santuário, transmitindo mensagens morais e proféticas por meio de figuras religiosas voltadas ao público.
Material. Escultura (entalhe) em pedra-sabão.
Dimensões. Entre 1,8 e 2,0 metros.


Enfim…
Os Profetas do Aleijadinho são um marco absoluto da escultura no Brasil. Impossível não ficar maravilhados frente às suas esculturas na paisagem mineira.

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Laura, que leitura gostosa, fácil e rápido entendimento, até prá mim que estou com dificuldades de leitura. Não tinha ideia dessas esculturas, sempre ouvi falar do Aleijadinho, mas sempre de forma superficial. Excelente explicação e análise detalhada destas obras. Fiquei impressionada com o “desgaste” com o tempo em ambos os sentidos rsrs . Muito obrigada. Tânia sua fã e ex-aluna, na verdade, sempre sua aluna
Tânia, obrigada pelo interesse e pelo carinho. Gostei de sua apreciação, feliz de saber que foi valioso. Acompanhe que vem mais assuntos interessantes.
Maravilhoso trabalho. Uma aula de arte carregad a de significado e beleza.
Obrigada Gustavo, me motivas a compartilhar mais. É impossível não se emocionar frente à obra de Aleijadinho.
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