Se você visse em uma praça uma estátua de um jovem segurando uma pedra e olhando para o sul, com uma expressão séria, você entenderia o significado? Provavelmente não. Mas, na época em que ela foi feita, passava uma mensagem bem clara.

Neste post você vai entender:

  1. Para que o David foi encomendado
  2. O desafio técnico para fazer a obra
  3. A mudança de planos
  4. O motivo de sua fama
Close-up da mão de David segurando a funda que repousa sobre o ombro, com foco na textura do mármore.
O refinamento ao esculpir a funda, arma usada por David, mostra a preocupação do artista em entregar um trabalho de acabamento superior em todas as partes. (Foto: Wikimedia Commons)


O essencial para conhecer a obra

Antes de Michelangelo, o David já tinha sido representado por outros escultores famosos, Donatello e Verrocchio, mas a versão de Michelangelo tornou-se um símbolo assim que foi inaugurada.


Para que foi feita?

Esta obra não nasceu para ser “contemplada” em um museu. Foi uma encomenda pública, com objetivos muito específicos.

Em 1501, Michelangelo assinou um contrato para esculpir a figura bíblica do David, recebendo um salário mensal de seis florins e um prazo de entrega de dois anos. Devia usar uma peça de mármore que estava abandonada nos depósitos da Catedral havia quarenta anos.
Ele tinha apenas 26 anos, mas era o artista mais bem pago de sua época, pois acabara de concluir a deslumbrante Pietá, em Roma.

  1. Encomenda religiosa. Os gestores da Catedral Santa Maria del Fiore queriam a estátua de um profeta bíblico para uma parte elevada da catedral. Por isso é tão grande: precisava ser vista e reconhecida lá do alto. Mas, quando finalizada, sua instalação revelou-se complexa e arriscada.
    Para decidir onde ficaria, em 1504, criou-se uma comissão que envolveu importantes cidadãos e artistas, incluindo Leonardo da Vinci e Sandro Botticelli.
    A decisão final foi exibi-la na praça em frente à sede do governo da cidade, onde permaneceu por 350 anos.
  2. Significado cívico. O novo local escolhido era o palco da vida civil e política de Florença desde o Império Romano. A comissão percebeu que aquela figura de um jovem pronto para a luta podia se tornar um monumento da resistência da própria República, que tinha acabado de expulsar a poderosa família Médici e vivia sob ameaça de estados vizinhos.
  3. Obra de arte para ser admirada. Em 1873, houve outra mudança de planos. Para proteger a escultura das agressões do ambiente, ela foi transferida para um museu, a Galleria dell’Accademia. Era a época do auge dos estudos acadêmicos de arte, e o David passou a servir também como modelo para estudantes.
  4. Desde então, milhões de turistas apreciam a obra. Sua função passou a ser, praticamente, a de um ícone da arte ocidental.
Réplica da estátua David instalada temporariamente no telhado da Catedral de Florença para demonstrar a localização originalmente planejada.
Como parte da programação cultural da cidade, uma réplica do David é colocada temporariamente no telhado da Catedral de Florença, o local original de sua encomenda. (Foto: Wikimedia Commons)


Qual era o significado do David?

  1. Na Bíblia. Faz parte de um relato bíblico, no Livro de Samuel, em que um jovem pastor teve a coragem de, sozinho e sem armas, enfrentar um gigante, confiando apenas na proteção divina e em sua astúcia, mesmo estando em desvantagem.
  2. A estátua passou a representar um pequeno Estado independente que se via como David, pequeno, mas audaz. Não é um símbolo de vitória, mas de coragem.
  3. Do ponto de vista do artista. A escultura foi feita no auge do Renascimento italiano, quando os homens cultos, apesar de muito católicos, valorizavam a razão e os estudos humanistas. Também pesquisavam a cultura clássica greco-romana e a anatomia. Se você pensar em qualquer estátua grega, provavelmente imaginará um homem nu e jovem, em pé, com um rosto sério. (Parece nossa estátua?)
    Para a encomenda, Michelangelo quis representar o cidadão perfeito. Ele está nu porque dispensou as armaduras.
Vista posterior da estátua David destacando a definição muscular das costas e dos ombros.
A musculatura das costas evidencia o vigor físico da figura e sua elegância anatômica. (Foto: Wikimedia Commons)


Sobre a nudez do personagem

Durante o Renascimento, a nudez inspirada nos ideais gregos não era considerada obscena: representava virtude e correção moral. A visão pecaminosa da época medieval tinha sido superada.
Apesar disso, sua nudez gerou algum constrangimento.

Em Londres, há uma réplica em gesso que possuía um dispositivo móvel, uma folha de figueira, para cobrir seus genitais quando a rainha Vitória visitava o museu. Nem preciso dizer que essa folha de figueira ganhou popularidade e já foi exibida em outros museus e galerias.

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A estátua David posicionada sob uma cúpula de vidro na Galeria da Academia com turistas ao redor observando a obra.
Na Galeria da Academia, a obra assume um papel de relíquia cultural, perdendo o sentido original de sentinela da praça para se tornar um objeto de contemplação. (Foto: Wikimedia Commons)


Por que é tão famosa?

  1. Porque o personagem é jovem, bonito e tem um corpo atlético com “atitude”. O segredo está na pose: parece calmo, mas domina o espaço. Para muitos, representa a potência masculina.
  2. Pela intensa visitação na cidade turística de Florença. Diferente de outras esculturas que ficaram “escondidas” em igrejas, o David foi para a praça pública. É a “Mona Lisa” da escultura.
  3. Porque foi feita por Michelangelo (1475–1564). O David também carrega a fama do artista, que, ainda em vida, conquistou reconhecimento e fortuna.
  4. Pela inovação em retratar o pastor confiante antes da luta. Ao transmitir esse instante por meio da tensão do corpo e da concentração do olhar, a escultura se destacou de outras representações do David, que costumam mostrar o personagem após a vitória, com a arma do inimigo e sua cabeça cortada aos pés.
Diversas estatuetas de resina ou plástico do David de Michelangelo sendo vendidas como souvenirs na Itália.
O David faz parte da economia turística global, mostrando como a função das obras muda com a sociedade. (Foto: Wikimedia Commons)
 Detalhe aproximado da mão direita de David mostrando o entalhe das unhas no mármore.
A técnica refinada nos dedos e unhas demonstra a busca da expressão perfeita do gesto. (Foto: Wikimedia Commons)


Como foi feita?

Mármore de segunda mão
Michelangelo não escolheu o material; precisou vencê-lo. O mármore destinado à obra já estava parcialmente esculpido e tinha sido recusado por dois artistas anteriores, Agostino di Duccio e Antonio Rossellino, devido à má qualidade da pedra.
O formato original da peça tinha proporções desfavoráveis para extrair dela uma figura humana: era muito longo e estreito, possuía áreas frágeis que punham em risco a retirada do material e já apresentava fissuras na região das pernas.
As proporções exageradas de alguns detalhes, como a cabeça e a mão direita, podem ser atribuídas ao fato de a escultura ter sido originalmente concebida para ficar no alto da catedral, de modo que partes importantes precisavam ser acentuadas para serem vistas de baixo.
As veias saltadas nas mãos e a tensão no pescoço resultam dos precisos estudos anatômicos feitos por Michelangelo.

Maquete em madeira de uma carruagem robusta projetada especificamente para o transporte da estátua David.
Maquete do sistema de transporte da estátua para a Academia em 1873. Exposto na Casa Buonarroti. (Foto: Wikiimedia Commons)

Transporte do gigante: o triunfo da logística

Quando ficou pronta, o novo desafio foi retirar a escultura da oficina e transportá-la até a praça onde seria instalada. O arco da oficina teve de ser demolido para permitir sua saída.
O transporte do David é um fato famoso e documentado em crônicas da época, pois exigiu o esforço de 40 homens para levar a obra manualmente durante quatro dias.
Para isso, foi construída uma estrutura robusta de madeira, puxada sobre cilindros também de madeira, untados com graxa.
Na praça, a escultura foi instalada sobre um pedestal de mármore, onde o artista realizou o acabamento final.

Curiosidades

A estátua já teve detalhes dourados que se perderam com a ação do tempo, no tronco da árvore atrás da perna e na funda.

Depois de ser retirada da praça, em 1873, a escultura ficou guardada durante nove anos na caixa em que foi transportada, enquanto era construída a cúpula onde seria exposta na Galleria dell’Accademia, onde se encontra atualmente.

Detalhe aproximado do topo da cabeça de David mostrando os cachos esculpidos com marcas visíveis de ferramentas.
No cabelo, é possível notar as marcas das ferramentas de trabalho; essas texturas ajudavam a criar sombras que definiam o volume. (Foto: Wikimedia Commons)


O que podemos aprender com ela?

Percebemos que a obra-prima foi o resultado de escolhas concretas e soluções inteligentes diante de limites reais.
Ela mostra que a escultura servia para comunicar algo importante para a sociedade. O David foi pensado para agir no mundo real.
Também nos ensina a apreciar o ofício do escultor. Os limites físicos da pedra, o conhecimento de anatomia e a percepção espacial foram os recursos para criar uma obra-prima.
Ao esculpir em escala gigante um personagem conhecido como pequeno e frágil, o artista cria um paradoxo visual que impacta o espectador.

Para organizar o que vimos

Nome. David
Artista. Michelangelo Buonarroti
Data. 1501–1504
Local original. Piazza della Signoria, Florença, de 1504 a 1910 (hoje há uma réplica)
Localização atual. Galleria dell’Accademia, Florença, desde 1873
Função e significado. Símbolo da liberdade e da coragem de Florença
Material. Escultura em mármore de Carrara
Dimensões. 5 metros de altura

Ilustração antiga em preto e branco mostrando a estátua David de Michelangelo sendo transportada em uma grande estrutura de madeira pelas ruas de Florença em 1873.
Em 1873, a obra deixou a praça pública para ser protegida na Galeria da Academia. (Foto: Wikimedia Commons)

Enfim…

Ao olhar para o David, não vejo um milagre inspirado; vejo talento, estudo, ousadia, técnica aplicada com rigor e a decisão de um artista com visão de negócios para construir sua autoridade em um ambiente altamente disputado como a Florença renascentista.
É o triunfo do ofício de escultor: a história real nos torna ainda mais fãs de Michelangelo.

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David de Michelangelo: por que essa estátua é tão especial?

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